ECONOMIA


Inadimplência derruba ações de bancos

Temporada de balanços mostra como juros elevados pressionam inadimplência e afetam lucro dos bancos

Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

 

Quando o juro sobe, a conta chega primeiro pro bolso de quem tomou o empréstimo, mas não demora muito pra chegar também pro banco que emprestou. Esse foi o roteiro que o mercado observou nos últimos balanços, segundo o Blog Marilia Fontes. do G1.

O caso mais recente é o do Santander Brasil. No segundo trimestre, o banco entregou lucro líquido gerencial de cerca de R$3 bilhões, queda de 17,6% frente ao mesmo período do ano passado.

A reação foi imediata: as ações caíram cerca de 7% no dia do resultado e já acumulavam queda de aproximadamente 21% em 2026, justamente enquanto a matriz espanhola sobe perto de 24% no ano.

A explicação central está na inadimplência, que avançou para 3,3% nos últimos doze meses, ante 2,8% antes, obrigando o banco a reforçar provisões para calotes em R$7,65 bilhões, alta de 11,5% na comparação anual.

O Banco do Brasil andou por uma rota semelhante, com origem concentrada no agronegócio. Seca, preço de commodities mais baixo e um ciclo de endividamento rural que se esticou nos últimos anos levaram à inadimplência acima de 90 dias na carteira rural a 6,22%, avanço de 3,5 pontos percentuais em um ano.

O resultado refletiu no lucro do banco, que despencou mais de 50% no primeiro trimestre, para R$4,4 bilhões, levando o próprio banco a revisar para baixo a projeção de lucro do ano.

O Nubank mostra que esse problema não é exclusivo dos bancos tradicionais. A fintech reportou receita e lucro recordes no primeiro trimestre, mas o mercado olhou primeiro para os atrasos entre 15 e 90 dias, que subiram de 4,11% para 5%, e para as provisões, que saltaram mais de 70% na comparação anual.

O fio que conecta os três casos é o mesmo. Juro alto encarece o crédito, torna as parcelas mais pesadas no orçamento das famílias e das empresas, e naturalmente aumenta a fatia de quem não consegue pagar em dia. Bancos com carteiras mais expostas a varejo, pequenas empresas ou agronegócio sentem esse movimento primeiro e com mais força, por representarem o público que mais sofre com o custo do dinheiro mais caro.

No entanto, nem todo banco está pagando esse preço. Itaú e BTG Pactual seguiram um caminho oposto e se mantiveram resilientes na bolsa. O Itaú vem entregando resultados considerados sólidos, com inadimplência acima de 90 dias estável, sustentada por uma estratégia deliberada de priorizar qualidade na concessão de crédito em vez de crescimento a qualquer custo.

Já o BTG segue em outra frente de negócio, mais concentrada em banco de investimento e gestão de patrimônio do que em crédito de varejo. O banco fechou o primeiro trimestre com lucro recorde de R$4,8 bilhões, alta de 42% no ano, e ROE de 26,6%, reforçando a liderança entre os bancos de investimento listados na B3.

A temporada de balanços revela a descorrelação do setor bancário sob juros altos, dividindo o mercado entre carteiras vulneráveis e ativos resilientes. Os investidores abandonam a análise setorial genérica para punir a alta inadimplência no varejo e no agro, enquanto recompensam a diversificação e o rigor no crédito.