POLÍTICA


Lula mantém ‘exército’ com 10 milhões no WhatsApp para pressionar Congresso

Após vitória nas urnas, presidente eleito e aliados defendem estrutura digital permanente e controle de algoritmos das bigtechs

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

 

​O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou a prioridade na regulação de redes sociais e na manutenção de bases digitais permanentes. O discurso ocorreu após a vitória nas urnas no último domingo (1). A estratégia busca garantir governabilidade no Congresso Nacional e confrontar as práticas das grandes corporações de tecnologia.

​O petista derrotou Flávio Bolsonaro (PL),no segundo turno com 51,8% dos votos ante 48,2% do adversário. O atual mandatário obteve sucesso inédito ao vencer a eleição após registrar 45,2% dos votos ante 47% do rival na etapa inicial.

​O deputado federal André Janones, da Rede Sustentabilidade (Rede), liderou a mobilização digital na campanha com o grupo “Exército do Lula” no aplicativo WhatsApp. O canal reuniu mais de 10 milhões de pessoas com comandos diários. O modelo de engajamento rendeu ao congressista convites para auxiliar campanhas estrangeiras.

​A estrutura virtual permanecerá ativa para exercer pressão popular e compensar a minoria governista no Poder Legislativo. “O grande objetivo desse ‘Exército’, pós-eleição, é compensar a minoria que o presidente Lula vai ter na Câmara e no Senado, porque a extrema direita está com uma maioria esmagadora”, afirmou Janones.

​O chefe do Executivo elogiou a atuação do parlamentar e prometeu manter diálogo constante com a população sem a intermediação de jornalistas. O presidente abdicou da resistência histórica ao uso de telefones celulares e adotou a tecnologia na reta final da disputa. “Daqui para frente, vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente”, declarou.

​”Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço”, completou Lula. A ação virtual conta também com o apoio de políticos de alto alcance na internet, como Ana Elisa (PT), Jones Manoel, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e Guilherme Cortez (PSOL).

​Cortez argumentou sobre a necessidade de manter a estrutura de comunicação ativa para enfrentar o campo conservador. O deputado ressaltou as vantagens históricas do lado oposto nos algoritmos das redes sociais. “A direita chegou antes, se desenvolveu nesse terreno, beneficiada por uma série de coisas, inclusive pelo algoritmo das redes sociais”, avaliou.

​”Para ganhar eleição foi preciso que a gente tomasse ofensiva nesse terreno, e conseguimos, mesmo com todas as comprovadas tentativas de boicotar nossa campanha pelos aplicativos”, disse o deputado eleito. O parlamentar propõe um modelo com opção de desativar as recomendações algorítmicas para exibir apenas conteúdos de perfis seguidos.

​A campanha eleitoral sofreu com acusações de interferência direta das plataformas digitais. Mensagens internas da empresa Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, revelaram um suposto benefício às contas de Flávio Bolsonaro e prejuízo aos canais esquerdistas. A corporação multinacional negou as irregularidades.

​Testes jornalísticos identificaram divergências nas respostas da inteligência artificial da empresa sobre os candidatos. As ferramentas tecnológicas chegaram a promover classificações numéricas entre os presidenciáveis de forma contrária à legislação eleitoral no primeiro turno.

​Integrantes do futuro governo pretendem votar o projeto de lei da regulamentação concorrencial das empresas de tecnologia até dezembro. O grupo político considera a janela atual mais favorável em comparação ao cenário com o novo Congresso Nacional. O presidente eleito endossou a urgência do tema em seu discurso.

​”Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las”, afirmou o presidente. “Não é possível que a gente não tenha consciência de que um crime no mundo digital tem que ser tratado igual a um crime na vida real”, continuou.

​O político questionou a isenção tributária das companhias multibilionárias e a influência imposta sobre o resultado eleitoral brasileiro. A equipe de transição planeja retomar as propostas de enquadramento elaboradas e estagnadas no mandato anterior. O objetivo principal centra a responsabilidade legal das plataformas sobre os conteúdos propagados.