JUSTIÇA


Falta consenso para contencioso judicial da Reforma Tributária do consumo

Fase de testes para previsão de novos impostos avança, mas julgamento das futuras disputas prossegue sem solução

Foto Agência CEUB

A fase de testes da implementação dos novos impostos da Reforma Tributária do Consumo avança a partir do dia 3 de agosto, quando não será permitida a emissão de documentos fiscais eletrônicos sem o preenchimento dos campos relativos ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) para as empresas do regime regular.

Desde o último dia 15, entretanto, que os estabelecimentos estão emitindo os documentos com preenchimento das áreas com alíquota teste de 1%, conforme reforçou o Comitê Gestor do IBS e foi destacado no site Contábeis. Acontece que especialistas, magistrados e operadores do Direito ainda não chegaram a um consenso em relação ao contencioso judicial que será provocado com a vigência desses tributos, visto que já se prevê um expressivo aumento da judicialização tributária nos próximos anos e do risco de que questões idênticas recebam decisões diferentes em ramos distintos da Justiça.

As divergências ficaram mais evidentes após a divulgação da proposta elaborada pelo grupo de trabalho instituído pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que  defendeu uma mudança estrutural no sistema de julgamento das ações a partir da criação de uma jurisdição especializada, com atuação integrada de magistrados federais e estaduais, e julgamento concentrado das controvérsias.

A proposta causou reações e outros caminhos foram apresentados para resolver o problema. Em artigo publicado no site Consultor Jurídico no dia 13 de junho, o procurador do Estado da Bahia Filipe Xavier sustentou que a solução apresentada pode ser mais complexa do que o problema que pretende resolver.

O especialista defende o fortalecimento de mecanismos processuais já existentes, como a sistemática de precedentes e a uniformização nacional de entendimentos pelos tribunais superiores, a partir do estudo do Direito Comparado e argumenta que haverá impactos no desfalque financeiro que provocaria a retirada dos processos da jurisdição.

O embate evidencia uma realidade que começa a preocupar especialistas: embora exista amplo reconhecimento dos desafios que o novo sistema tributário trará ao Judiciário, ainda não há consenso sequer sobre o caminho institucional que deve ser adotado.

O debate também alcança questões sensíveis do federalismo brasileiro. Críticos da proposta do CNJ questionam se a criação de uma jurisdição nacional especializada poderia gerar impactos sobre a autonomia dos entes federativos e sobre a própria distribuição constitucional de competências entre Justiça Federal e Justiça Estadual. Por outro lado, defensores da proposta argumentam que a ausência de um mecanismo específico poderá levar à multiplicação de decisões conflitantes, aumentando a insegurança jurídica para contribuintes e administrações tributárias.

Na prática, o que se observa é que a reforma tributária, aprovada com o objetivo de simplificar a cobrança de tributos sobre o consumo, abriu uma nova frente de discussão sobre a organização do sistema de Justiça. E, ao menos neste momento, não há uma resposta única para a questão.