POLÍTICA


Mais de 70 mulheres tiveram mandatos cassados em 10 anos no país

Primeiro caso ocorreu em 2016, com o impeachment da então presidente da República, Dilma Rousseff

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

Um levantamento do Instituto E Se Fosse Você aponta que 71 mulheres com mandatos eletivos foram alvo de processos de cassação ou tiveram os mandatos efetivamente cassados entre 2015 e 2025 em 19 unidades da federação. Os dados foram apresentados na terça-feira (3), durante o lançamento do estudo Mulheres Ameaçadas no Brasil: dos feminicídios às cassações de mandatos (2015-2025), na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo).

Segundo o relatório, os casos se intensificaram a partir de 2019. O primeiro episódio registrado ocorreu em 2016, com o impeachment da então presidente da República, Dilma Rousseff. Desde então, o número de ocorrências cresceu de forma contínua. Em 2023, ano de renovação do Congresso Nacional, foram registrados 11 casos. O pico foi alcançado em 2024, com 30 episódios.

As vereadoras concentram a maior parte das ocorrências. De acordo com o estudo, 73% das mulheres atingidas ocupavam cadeiras em câmaras municipais. Já parlamentares estaduais, distritais e federais representam 20% dos casos.

O levantamento também aponta um recorte político. Quase 40% das mulheres alvo de tentativas de cassação pertenciam ao Partido dos Trabalhadores (PT) ou ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Entre os autores das iniciativas, 70% estavam vinculados a partidos de perfil conservador, como PL, União Brasil, PP, PSD e MDB. Além disso, 78% dos agressores identificados eram homens cisgêneros.

Para os pesquisadores, os dados indicam que os ataques vão além da questão de gênero e também estão relacionados a posicionamentos políticos e à defesa pública de pautas ligadas aos direitos das mulheres.

O relatório sustenta que há um padrão de hostilidade político-ideológica direcionado especialmente a mulheres progressistas, fenômeno que o movimento feminista classifica como backlash — reação organizada contra avanços conquistados pelas mulheres. Segundo a análise, mulheres que desafiam estruturas de poder locais, seja por posição ideológica, atuação de oposição ou renovação política, têm sido alvos frequentes desse tipo de violência institucional.