JUSTIÇA


Disputa por controle e dívidas levam Oncoclínicas à recuperação extrajudicial após queda de 85% nas ações

Empresa de tratamento de câncer tenta reestruturar balanço em meio a conflito com Goldman Sachs, conexões com fraude bancária e atrasos no atendimento de pacientes

Foto: Divulgação

A rede de Oncoclínicas (ONCO3) recorreu à recuperação extrajudicial para reestruturar seu balanço financeiro, após registrar acúmulo de dívidas, perdas financeiras e escassez de liquidez.

A medida ocorre em um cenário de queda superior a 85% no preço de sua ações, acumulada desde que companhia alcançou o valor de mercado de US$ 1,87 bilhão após sua oferta pública inicial.

A crise na empresa desencadeou uma disputa sobre sue controle societário, a qual envolve o banco Goldman Sanchs, um fundo de hedge com sede em Houston e a Polícia do Estado de São Paulo. O caso apresenta também ramificações relacionadas ao Banco Master, instituição financeira que sofreu liquidação compulsória em novembro sob acusações de fraude bancária.

A trajetória das oncoclínicas insere-se no contexto de taxas de juros em patamar de dois dígitos no Brasil, fator que afeta companhias alavancadas que apresentaram crescimento acelerado e geração insuficiente de caixa. Paralelamente, órgãos reguladores tentam acompanhar a complexidade de manobras societárias executadas no mercado corporativo do país.

O movimento de reestruturação segue uma tendência recente identificada no mercado brasileiro. Companhias como a petroquímica Braskem (BRKM5), a produtora de biocombustíveis Raízen (RAIZ4), a rede de supermercados Cia Brasileira de Distribuição (PCAR3) e a empresa do setor de saúde Kora (KRSA3) também solicitaram recuperação extrajudicial.

O quadro aumentou o escrutínio sobre a governança das empresas brasileiras, em desdobramento a eventos como a turbulência registrada na companhia de gestão de resíduos Ambipar no ano passado.

O analista da Sun Capital Valores, Juan Manuel Patino, avaliou o momento do mercado corporativo nacional: “Após tantos ‘casos isolados’, o mercado deixou de dar às empresas o benefício da dúvida, alimentando o círculo vicioso que vemos agora.”

A situação financeira da companhia afeta diretamente a prestação de serviços essenciais de saúde. Em Recife (PE), a paciente Cintia Maria Rocha, de 46 anos, em segunda rodada de tratamento contra o câncer de mama, enfrenta problemas operacionais desde que a clínica em que se tratava passou a integrar a rede Oncoclínicas.

A paciente relata indisponibilidade de medicamentos para quimioterapia, além de atrasos decorrentes de trâmites burocráticos entre a clínica e a operadora do plano de saúde.

Cintia Maria Rocha descreveu o impacto da situação em seu acompanhamento médico: “Os sentimentos que eu consigo nomear são descaso, descuido, falta de atenção, ansiedade e aumento de medo.”