ECONOMIA


Saída de investidores estrangeiros da Bolsa brasileira volta a acelerar em agosto

Após uma trégua em julho, rentabilidade dos ativos americanos renova a competição pelo capital global

Foto: Assessoria

Nos primeiros três meses e meio de 2026, investidores estrangeiros colocaram quase R$ 70 bilhões na Bolsa brasileira. Desde então, retiraram mais da metade desse valor. A mudança chama atenção pela evolução.

Do início do ano até 14 de abril, os estrangeiros colocaram cerca de R$ 69 bilhões líquidos em ações negociadas na B3. Apesar da magnitude, o movimento já perdia força: foram R$ 26,3 bilhões em janeiro, R$ 15,4 bilhões em fevereiro, R$ 11,7 bilhões em março e apenas R$ 3,2 bilhões em abril. O dinheiro continuava entrando, mas em ritmo cada vez menor.

Em meados de abril, a desaceleração virou mudança de direção. Desde o pico acumulado de aproximadamente R$ 69 bilhões até 7 de agosto, os estrangeiros retiraram R$ 38 bilhões. Mais da metade de tudo o que havia entrado até então foi devolvida. Ainda assim, graças à forte entrada do início do ano, o saldo em 2026 permanece positivo em cerca de R$ 31 bilhões.

Da mesma forma, observa-se um padrão de decaimento do fluxo. Maio registrou saída de quase R$ 15 bilhões e junho, de outros R$ 8 bilhões. Julho trouxe uma aparente trégua, com entrada de R$ 2,6 bilhões. Parecia um sinal de reversão da tendência.

Entretanto, o início do mês de agosto voltou a chamar atenção. Em apenas cinco pregões, até o dia 7, os estrangeiros retiraram R$ 5,6 bilhões. Somente nos dois últimos dias desse período foram quase R$ 4,7 bilhões.

Segundo a análise de Michael Viriato publicada pela Folha, ainda é cedo para saber se agosto representa uma oscilação pontual ou se julho foi a exceção e estamos assistindo à retomada do fluxo negativo iniciado em abril. Mas o momento em que essa saída ocorre merece atenção.

Enquanto o estrangeiro volta a retirar recursos da B3, os Estados Unidos oferecem uma combinação para disputar o capital global. O S&P500 atingiu nova máxima histórica em 7 de agosto, enquanto as taxas dos títulos de dez anos do Tesouro americano subiram e agora oferecem retorno de 4,7% ao ano.

Assim, o investidor encontra no mesmo mercado ações se valorizando e renda fixa soberana pagando juros historicamente elevados.

O humor das ações americanas não é injustificado. O lucro médio das ações que formam o S&P500 cresceu 28% no primeiro trimestre de 2026 e o segundo trimestre surpreendeu ainda mais. O lucro médio das empresas do principal índice americano sobe 51% no segundo trimestre de 2026.

Os dados da B3 não permitem afirmar que os recursos retirados estejam migrando para os Estados Unidos, mas a atratividade dos ativos americanos aumenta a competição por esse capital.

Entre 15 de abril e 7 de agosto, enquanto estrangeiros retiraram cerca de R$ 38 bilhões, investidores institucionais compraram aproximadamente R$ 15 bilhões, pessoas físicas, R$ 14 bilhões, e instituições financeiras, R$ 8 bilhões.

A fotografia é praticamente inversa à do começo do ano, quando o estrangeiro comprava fortemente enquanto esses investidores domésticos predominantemente vendiam.

Os institucionais são principalmente fundos de investimento, fundos de pensão, seguradoras e entidades de previdência. Portanto, parte desse dinheiro também pertence, em última instância, a pessoas físicas que investem por meio desses veículos.

Isso não significa necessariamente que um esteja certo e o outro errado. Eles enfrentam conjuntos diferentes de alternativas e prazos de investimentos. O brasileiro compara a Bolsa principalmente com os investimentos disponíveis no mercado doméstico. O estrangeiro compara o Brasil com o mundo inteiro.

E, neste momento, os Estados Unidos possuem bolsa em máximas e juros elevados. O fluxo não revela quem está certo. Mas mostra quem está disposto a ficar com as ações brasileiras aos preços atuais, e quem encontrou alternativas que considera mais atraentes em outro lugar.