JUSTIÇA


ENTREVISTA: “Nós temos uma força muito grande no tripé que nos sustenta: ensino, pesquisa e extensão”, afirma diretora sobre os 135 anos da Faculdade de Direito da UFBA (PARTE2)

Mônica Aguiar fala sobre os pilares e as forças da centenária instituição no acesso ao conhecimento

Assessoria/UFBA

Nesta segunda parte da entrevista à coluna MundoBAJus, Mônica Aguiar, diretora da Faculdade de Direito da UFBA (FDUFBA), fala sobre os pilares e as forças da tradicional instituição que celebra este mês 135 anos de fundação. Segundo ela, a política de cotas deu um novo rosto para a universidade e aquela “faculdade moribunda, cheia de mofo” não existe mais. Aborda, também, os principais desafios do ensino do Direito nos tempos atuais.

A faculdade celebra o cenetnário com duas sessões solenes, às 9h e às 18h30, na sede da faculdade, na Graça, na próxima quarta (15).  Há também um seminário que se inclui nas comemorações na terça (14).

Leia na primeira parte desta entrevista sobre os desafios estruturais e a eleição da primeira mulher para o cargo de direção da FDUFBA. CLIQUE AQUI

E em relação à parte acadêmica? Aquela imagem da faculdade arcaica antiga, da pompa; a vulgarização dos cursos de direito pelo país, como está a Faculdade de Direito da UFBA diante disso?

 A nossa faculdade tem um perfil bastante diferenciado em relação a qualquer outra. É que nós temos uma força muito grande no tripé que nos sustenta: ensino, pesquisa e extensão. Trabalhamos com a comunidade em vários grupos de extensão. Atendemos pessoas carentes com serviço de judiciário. Temos um núcleo jurídico. Nós temos um núcleo de competições internacionais que sempre está ganhando prêmios por aí afora. Nós temos um núcleo que é um núcleo de defesa, uma associação de defesa de consumidor que também faz vários trabalhos junto ao Ministério Público Estadual. Temos a Clavin, núcleo que trata da mulher vítima. Tudo aqui dentro.

Nós fazemos um trabalho fenomenal. Exatamente por sermos uma faculdade, eu diria, plural, nós temos vários grupos ideológicos diferentes convivendo, o que é muito saudável também, porque quando você sai da faculdade privada está sempre nas bolhas, né? Você está na bolha que você não lida com o diferente. Aqui não. Você tem a oportunidade de lidar com o diferente.

O professor que pensa que é de extrema direita e não gosta desses termos, mas enfim, que está convivendo com outro que é de extrema esquerda e tem que trocar ali as opiniões. Então isso, para mim, é um fato bastante importante.

Qual a sua opinião em relação ao ensino do Direito e as tecnologias?

Nós somos a melhor. Todos os dados comprovam. As gerações vão passando e nós vamos acompanhando. Porque os alunos hoje têm essa questão da tecnologia, nós temos professores aqui que trabalham só com isso, que tem grupo de pesquisa sobre isso, então nós estamos sempre avançando com a sociedade. Eu não vejo mais aquela faculdade moribunda, aquela faculdade, cheia de mofo. Não, ao contrário. É uma faculdade pulsante.

E essa questão do BI? Dos que ingressam pelo Bacharelado Interdisciplinar, pode exercer a profissão igualmente a quem entra pela FDUFBA, pelo curso regular?

Para fazer a prova da OAB, a pessoa tem que migrar do BI para o CPL (Curso de Progressão Linear, graduação que o aluno escolhe após concluir o BI). Em algumas outras unidades da UFBA, pode ser que tenha algum tipo de diferenciação. Aqui em Direito, não. Ao contrário, nós somos a faculdade que recebe o maior número de egressos do BI para o CPL. A pessoa faz o BI primeiro, se quiser. Para entrar no CPL, ela pode entrar pelo ENEM ou depois do BI ou durante o BI, fazer algumas matérias de CPL e depois migrar. Vai depender do escore. E pode ter duas graduações, em Humanidades e em Direito. Eu acho esse movimento ótimo. É uma forma de você também ter outras qualidades, outras pessoas, que vem de Humanidades, uma formação mais genérica.

E em relação ao perfil dos alunos dos tempos atuais, como lidar com essa nova geração?

Eu diria que tem o imediatismo, que querem resolver logo. Às vezes, eu tenho colegas que dizem assim. Tem muito ‘mimimi’ também. Exatamente por quê? Mas o que eu vejo realmente é que há uma baixa resistência à frustração. Como eles conseguem resolver tecnologicamente as coisas mais rápidas, no mundo real, eles não conseguem sustentar a frustração. E por mais simples que ela seja, por mais do cotidiano que ela seja, eles já acham que aquilo é um absurdo, é muito grande. Então realmente é um grande desafio para os educadores tratar disso e cuidar disso. Porque os estudantes não querem ser frustrados.

Qual é o papel da universidade hoje?

Para gente saber o papel da universidade hoje, a gente tem que buscar as origens, quando as universidades começaram. Porque o conhecimento, de forma geral, vivia dentro dos monastérios. Como demonstra o filme “O nome da rosa”. Então, o conhecimento vivia nos monastérios, era um conhecimento introvertido, que só aquelas pessoas que ali moravam podiam ter. E, mesmo assim, de forma limitada. E, quando a gente abre, quando isso abre, que abre para o mundo que se torna extrovertido, é que migra dos monastérios para as universidades.

As universidades são aqueles espaços em que o conhecimento tem que estar aberto para todos. Eu acho que quem melhor faz isso é exatamente a universidade pública. Ainda mais agora, depois das cotas, dessa mistura que nós fizemos, que, como eu digo, as pessoas de vulnerabilidade socioeconômica, elas podem estudar primeiro e segundo grau em escola pública.Quando vêm para o terceiro grau, e mesmo que a escola pública seja de excelência, elas têm de concorrer com quem vem de escola privada. Então, eu sou até mais radical. Eu acho que, primeiro, tinha que entrar todo mundo de escola pública, para depois, então, as vagas que sobrassem irem para escolas particulares, sabe? Mas, enfim, da forma como está, nós já conseguimos uma mudança visceral.

Quando eu estudava aqui, mesmo quando eu comecei a ensinar, era uma outra faculdade. Era uma faculdade de pessoas de pele clara, faculdade de pessoas de classe média, classe média alta. Hoje, a gente vê um outro mundo, que é muito saudável e eu acho que é esse o papel que a universidade tem.