POLÍTICA


PF apura rede suspeita de vender influência em processos de Mendonça e Kassio no STF

Investigação encontrou conversas sobre pedidos a ministros e contratos milionários ligados ao resultado de ações na Corte

Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil; Divulgação/PF; Carlos Moura/SCO/STF

 

A Polícia Federal (PF) investiga uma rede suspeita de comercializar influência em processos no Supremo Tribunal Federal (STF) que envolviam atuação junto aos gabinetes dos ministros André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes.

Mensagens obtidas pela PF mostram o deputado federal Cezinha de Madureira (PSD-SP) afirmando que faria um pedido diretamente a Kassio e que já havia conversado com interlocutores chamados “Andre e Antonio Carlos”, enquanto recebia memoriais destinados também a Mendonça e Gilmar.

A investigação levou o ministro Flávio Dino a autorizar buscas contra Cezinha e a sociedade de advocacia de sua esposa, Valéria Rodrigues Linhares. A PF apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Segundo a decisão, Cezinha, que não é advogado, seria responsável por fazer “despachos” em gabinetes do Judiciário. A PF afirma ter identificado uma estrutura formada pelo deputado, sua mulher e a advogada Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”.

Segundo a representação policial reproduzida por Dino, o esquema se repete nos episódios analisados: Mariângela encaminhava uma peça ou memorial ao parlamentar; Cezinha respondia que havia “falado”, “despachado” ou “pedido”, ou informava que seria atendido pelo ministro; a advogada cobrava notícias sobre o resultado; e, paralelamente, eram formalizados contratos com pagamentos vinculados ao êxito das ações.

Um dos principais episódios apontados pela PF ocorreu em 12 de junho de 2025 e envolveu a Reclamação 76.831, em tramitação no Supremo. No dia, Mariângela enviou a Cezinha um memorial e chamou a atenção para a necessidade de “pedir vista”. O deputado respondeu que seria atendido às 16h. A advogada então perguntou se ele estaria com Kassio Nunes Marques naquele horário.

Cezinha respondeu que já havia falado no dia anterior com “Andre e Antonio Carlos” sobre o assunto. Depois, explicou que Kassio havia marcado uma conversa por vídeo para as 16h.

Na sequência, afirmou que já havia avisado “aquela pessoa” de que existia um tema a tratar e que enviaria o número do processo antes da conversa com Kassio. Cezinha disse ainda que o encontro serviria para verificar se precisava “pedir expressamente”.

Para a investigação, essas expressões indicam, nesta fase preliminar, que o parlamentar não se limitaria ao encaminhamento de documentos, mas se comprometia a formular um pedido pessoal ao julgador em benefício de partes representadas por advogadas ligadas a ele.

A PF ainda tenta identificar “Andre e Antonio Carlos” e a “aquela pessoa” mencionada pelo parlamentar. Além disso, não há, até o momento, elemento na decisão que permita afirmar que o “Andre” mencionado por Cezinha seja André Mendonça.

Seis dias depois da conversa, Mariângela encaminhou a Cezinha três documentos: “Memorial Rcl 76831 – Min. Nunes Marques.pdf”, “Memorial Rcl 76831 – Min. André Mendonça.pdf” e “Memorial Rcl 76831 – Min. Gilmar Mendes.pdf”.

Na representação, a PF afirma que a investigação busca esclarecer a existência, a extensão e a estabilidade de uma “estrutura destinada à comercialização de influência” junto a ministros do STF, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo os investigadores, essa suposta influência estaria associada a “remuneração vultosa”, ajustada por contratos de honorários e cessões de crédito celebrados por advogadas ligadas ao deputado, uma delas, sua própria mulher.
Dino considerou haver uma “densa plataforma indiciária” e afirmou existirem “razões de sobra” para autorizar as buscas.

Para o ministro, os fatos podem envolver um deputado que, embora não seja advogado, aparentemente utilizava a condição parlamentar para transmitir a terceiros a percepção de que tinha influência sobre magistrados de tribunais superiores. Dino acrescentou que a “elevada remuneração” encontrada na investigação parece afastar, nesta fase, a hipótese de mero ato político.

A PF ressalva expressamente que Mendonça, Nunes Marques, Gilmar ou qualquer outro magistrado não são investigados. Segundo a representação, não há nos elementos reunidos até agora indício de que ministros tenham solicitado, aceitado ou recebido vantagens indevidas, nem de que tenham proferido decisões contrárias ao direito.