JUSTIÇA


Audiência em vara criminal traz novo desdobramento ao caso de racismo contra ex-cônsul da França na Bahia

Mamadou Gaye é ouvido na presença do réu e espera posição firme da Justiça para evitar repetição de condutas racistas

Foto: Renata Aiala de Mello/Assessoria

Audiência realizada na 9ª Vara Criminal da Comarca de Salvador do Tribunal de Justiça da Bahia na última quarta, 6, marcou um novo desdobramento do caso de racismo envolvendo o franco-senegalês Mamadou Gaye, ex-cônsul honorário da França na Bahia.

O processo teve origem em denúncia apresentada pela 1ª Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos do Ministério Público da Bahia, que acusou o réu, o cidadão francês Fabien Liquori, de ter cometido crimes contra a honra, injúria e injúria preconceituosa em razão da origem ao enviar e-mails com ofensas direcionadas ao ex-cônsul, compartilhados com autoridades do Brasil e da França no ano de 2023 – período em que Mamadou exercia a função de representação administrativa na Bahia.

Durante a audiência, que teve a presença do réu, Mamadou afirmou que o momento representa uma etapa importante na responsabilização criminal de práticas racistas. Militante antirracista, destacou a importância de decisões judiciais firmes para combater a discriminação racial e fortalecer a democracia.

Também foram ouvidas testemunhas ligadas ao caso, entre elas Lúcia Queiroz, assistente no Consulado, e Leandro Cardoso Torres Cunha, ex-vizinho do acusado. Segundo o relato apresentado, os depoimentos reforçaram comportamentos considerados desrespeitosos e discriminatórios atribuídos ao acusado.

Ao comentar o andamento do processo, Mamadou Gaye afirmou esperar que a Justiça adote uma posição firme diante do caso para evitar a repetição de práticas discriminatórias.

Entenda o caso

Enquanto cônsul, no período de 2019 a 2024, Mamadou Gaye atendia cidadãos com questões burocráticas e administrativas no país europeu. O réu, um homem francês que mora na Bahia, foi uma dessas pessoas.

Os insultos teriam começado em maio de 2023, quando o então cônsur não atendeu a um pedido do acusado. “Ele me pediu para entrar em contato com uma administração na França, o que a gente não faz até porque essas entidades não permitem que pessoas sejam representadas. Era um assunto particular dele”, explicou em matéria publicada no portal G1 em 2025.

A recusa teria provocado as ofensas via mensagem eletrônica, em que o acusado teria qualificado Mamadou de “tirano africano”, a quem desejava “uma boa volta no seu buraco parisiense”, e compartilhado com diversas autoridades do Brasil e da França, em cópia.

O caso teve desfecho no Juizado Especial, que condenou o réu a uma indenização por danos morais mínima dada a proporção do crime, na visão do ex-cônsul, que ingressou com queixa-crime junto ao Ministério Público da Bahia e está sendo acompanhado pela promotora Lívia Vaz.