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Estudo da UFMS testa misturas de até 30% de biodiesel para definir limites de segurança

Pesquisa em Mato Grosso do Sul avalia efeitos do armazenamento e das matérias-primas na qualidade do combustível

Foto: jarmoluk/Pixabay

Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Química da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) avalia o comportamento de misturas entre 10% e 30% de biodiesel no diesel mineral. O objetivo do projeto é determinar critérios técnicos para a conservação e o uso seguro do combustível em motores.

A investigação ocorre sob a coordenação da pós-doutoranda Fabiana Pereira de Sousa, com financiamento da Fundect, bolsa do CNPq e a UFMS como instituição executora. O estudo coincide com a vigência da mistura B15 no mercado nacional e com o cronograma do Ministério de Minas e Energia para testes de até B25.

Segundo a pesquisadora, o aumento do teor exige cuidados quanto à formação de resíduos e ao entupimento de filtros. “O objetivo deste estudo não é impedir o aumento do uso desse biocombustível, mas fornecer informações científicas para que esse avanço ocorra com segurança, preservando os benefícios ambientais e energéticos do biodiesel e, ao mesmo tempo, garantindo o bom funcionamento e a durabilidade dos motores”, explica Fabiana.

A presença do grupo éster no biodiesel amplia a absorção de água durante o transporte e a estocagem. Esse acúmulo de umidade favorece a proliferação de fungos e bactérias, com a geração de biofilmes, borras e corrosão no sistema de injeção dos veículos.

Os testes monitoram a resistência à oxidação de derivados de óleo de soja, óleo de algodão e sebo bovino. A análise verifica como o envelhecimento do material altera suas propriedades físico-químicas em diferentes períodos de estocagem.

“Os resultados, em tese, poderão ajudar a definir critérios de qualidade e indicar por quanto tempo e sob quais condições essas misturas podem ser utilizadas sem aumentar significativamente o risco de entupimentos, corrosão, perda de desempenho ou danos aos motores”, afirma Fabiana.

A reconstituição em laboratório da diversidade climática e territorial do país representa um dos entraves operacionais da equipe. “Abordar todas as possibilidades é uma tarefa desafiadora”, afirma.

A especialista destaca a relevância do biocombustível para a autonomia energética do Brasil e a mitigação ambiental. “Estudos como este ajudam a estabelecer critérios de qualidade, a prevenir a formação de resíduos e a garantir a durabilidade dos motores e dos demais sistemas mecânicos que utilizam essas misturas”, explica.

No Mato Grosso do Sul, o foco recai sobre o maquinário agrícola parado no pós-colheita, período em que a degradação no tanque pode travar sistemas mecânicos. “Os resultados também poderão orientar produtores rurais quanto aos cuidados com o combustível e contribuir para a redução dos custos de manutenção e do tempo de máquinas paradas”, aponta a pesquisadora.

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam que Mato Grosso do Sul produziu 31,159 milhões de litros de biodiesel no primeiro semestre de 2026. O volume representa uma alta de 32,4% ante os 23,536 milhões de litros do mesmo período de 2025, o que coloca o estado na sétima posição nacional.

A produção brasileira atingiu 808,591 milhões de litros no primeiro semestre de 2026. A liderança coube ao estado de Mato Grosso, com 202,664 milhões de litros, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 185,134 milhões de litros.

A escassez de dados sobre misturas elevadas em armazenamento prolongado reforça a utilidade técnica dos testes para o aperfeiçoamento de normas públicas. “Acredito que o maior legado do projeto será fornecer informações científicas que ajudem a tornar mais seguro o uso de misturas de biodiesel e diesel. Com esses dados, será possível contribuir para a definição de critérios de qualidade, melhores condições de armazenamento e limites seguros para o aumento do teor de biodiesel”, conclui.