ARTIGO


Camaçari como resposta estratégica da indústria chinesa às barreiras comerciais da União Europeia

A fábrica da BYD abre uma oportunidade para a Bahia, mas exportar à Europa exige fornecedores, porto, energia e qualificação, não apenas anúncios

Foto: Arquivo Pessoal

Por: Jeffiton Ramos

A consolidação da produção automotiva em Camaçari nos permite uma interpretação que ultrapassa os portões da fábrica. Depois do trauma econômico deixado pelo encerramento da antiga montadora, a chegada da BYD devolveu ao município empregos, expectativa e uma pergunta: a Bahia poderá produzir veículos elétricos não apenas para o Brasil e a América Latina, mas também para a Europa?

Penso que sim. Lembro que o acordo Mercosul-União Europeia criou condições mais favoráveis para automóveis produzidos no bloco. Ao mesmo tempo, a Europa passou a cobrar sobretaxas dos veículos elétricos originários da China. Essa combinação aumenta o valor econômico de uma fábrica brasileira. A chave jurídica está nas regras de origem do acordo. A preferência tarifária europeia não segue a nacionalidade do capital, mas a origem da mercadoria: o produto fabricado no Brasil com transformação substancial e conteúdo regional suficiente é, juridicamente, mercadoria do Mercosul, qualquer que seja a bandeira de sua matriz. Enquanto o elétrico embarcado em Xangai enfrenta a muralha tarifária, o mesmo elétrico produzido em Camaçari entra pela porta preferencial, com desgravação que leva as tarifas industriais europeias a zero em até dez anos. E isso, de fato, beneficia Camaçari e pode elevar a outro nível a estratégia operacional da planta da montadora chinesa já instalada no município.

E nenhum território brasileiro combina o que Camaçari combina: a maior operação da BYD fora da Ásia, o primeiro complexo petroquímico planejado do país, vocacionado para os insumos químicos da eletromobilidade, e saída portuária metropolitana para o Atlântico. Temos, pois, que o município reúne pressupostos materiais singulares para a captura da oportunidade descrita. Nesse sentido, a BYD informou, em julho de 2026, ter atingido a marca de 100 mil veículos produzidos, com 5,5 mil empregos gerados. A capacidade inicial anunciada é de 150 mil unidades por ano, com planos de expansão. A empresa também recebeu pedidos já divulgados da Argentina e do México, o que confirma a formação de uma plataforma latino-americana. A moldura do BRICS, com banco próprio e comércio em moedas locais, completa o arranjo.

Importante lembrar que, para veículos, o acordo exige no mínimo 55% de conteúdo originário do Mercosul ou da UE; para autopeças, 50%. Como a bateria responde por até 40% do valor de um elétrico, a preferência só se materializa com a internalização da cadeia completa: células, powertrain, componentes. Nacionalizar a cadeia deixa de ser escolha e passa a ser condição legal da vantagem. E registre-se: a aludida estratégia não configura triangulação, prática que as próprias regras coíbem, e sim produção genuína, que o direito do comércio internacional admite e estimula.

Ao analisarmos a dimensão financeira da rota preferencial a partir de dados de mercado, verificamos que as marcas chinesas devem comercializar cerca de 800 mil veículos na União Europeia em 2026, com projeção de superar 1 milhão de unidades em 2027, segundo estimativas de consultorias do setor. Isso corresponde a uma receita anual da ordem de US$ 30 bilhões. É aqui que chamo a atenção para os números, e a conta é simples. Em exercício conservador, cada 100 mil unidades que migrassem da exportação direta chinesa para a rota Mercosul representariam, aos preços médios praticados no mercado europeu, cerca de US$ 3,5 bilhões anuais em faturamento com margem preservada, somados a um montante entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão por ano em sobretaxas e tarifas evitadas, conforme o fabricante, considerando que a carga sobre a origem chinesa varia de 27% a 45,3% enquanto a rota Mercosul converge para a alíquota zero. Uma plataforma que alcançasse 200 a 300 mil unidades anuais de exportação colocaria em jogo, portanto, um prêmio recorrente da ordem de US$ 7 a 10 bilhões por ano para o conjunto dos fabricantes chineses, sem computar baterias, autopeças e demais produtos da cadeia.

E nesse processo, o poder público municipal está sendo decisivo: atua com firmeza no licenciamento com prazos vinculantes, condiciona ISS e IPTU a contrapartidas de adensamento da cadeia, busca criar mecanismos de qualificação de mão de obra e aprimora a infraestrutura de saúde, educação e mobilidade viária para a recepção desses investimentos. Agora, feito o dever de casa, precisa ousar mais e partir para apresentar a outras montadoras chinesas as vantagens de instalarem suas plantas no município de Camaçari.

Camaçari já voltou ao mapa brasileiro do automóvel. Voltar ao mapa mundial dependerá do protagonismo do poder público municipal, que, nesse contexto, é ônus de diligência histórica. A melhor política, agora, é trocar a euforia pela execução: medir, qualificar, integrar e cobrar resultados.

Jeffiton Ramos é advogado, Mestre em direito público, diplomata do bloco BRICS+ pelo CAESE|CEAEDD, palestrante internacional, pesquisador de geopolítica, geoeconomia, comércio internacional e desenvolvimento territorial.