ARTIGO


Eleição escolhe governos e representantes, mas não reorganiza, por si só, a nossa vida

"Na segunda-feira, é preciso retomar a dieta, levar as meninas para a escola, trabalhar, resolver problemas e batalhar para pagar os boletos no fim do mês", escreve o advogado Tercio Roberto Peixoto Souza

Foto: Arquivo pessoal

 

Por Tercio Roberto Peixoto Souza* 

O fenômeno eleitoral é interessante.

Ele se parece um pouco com o réveillon.

Há quem queira acreditar que aquele momento é mágico. Que, quando terminar a contagem dos votos, alguma coisa fundamental terá mudado e, finalmente, começaremos um novo tempo.

Há também quem se anime tanto que vista literalmente as cores de sua escolha, transforme candidato em identidade e passe a defender sua visão de mundo com uma convicção que me lembra minhas filhas adolescentes em época de gincana escolar.

É o nosso réveillon cívico.

Só que tenho cada vez mais dificuldade de acreditar na mágica.

Passada a eleição, chega a segunda-feira.

E, na segunda-feira, é preciso retomar a dieta, levar as meninas para a escola, trabalhar, resolver problemas e batalhar para pagar os boletos no fim do mês.

É preciso também aceitar uma das regras mais incômodas da democracia: a maioria decide. E decide não necessariamente aquilo que eu considero melhor, mais racional ou mais justo.

Quem ganha comemora e diz que “o povo falou”.

Quem perde promete uma “oposição responsável”.

O sistema absorve o resultado, troca alguns personagens, redistribui espaços de poder e continua funcionando.

E continuaremos assistindo às soluções de conveniência, aos “jeitinhos” institucionais e às decisões justificadas pela necessidade de preservar a estabilidade porque há gente, dinheiro ou interesses demais envolvidos.

No fundo, quem exerce poder — pela lei, pelo dinheiro, pela influência ou pela força — dificilmente deixa de exercê-lo porque depositamos um voto numa urna.

Isso significa que votar não importa?

Não.

Importa muito.

Mas talvez importe menos do que gostamos de acreditar.

A eleição escolhe governos e representantes. Não reorganiza, por si só, a nossa vida. Não educa nossos filhos. Não organiza nossas finanças. Não melhora nossa saúde. Não constrói nossas relações. Não nos torna mais responsáveis, disciplinados ou livres. Isso só vem a partir do que fazemos dia a dia.

Por isso, depois do nosso réveillon eleitoral, sobra a mesma pergunta que aparece todo fim de ano:

E agora, o que eu vou fazer com a minha própria vida?

Posso comemorar o resultado como se fosse uma vitória pessoal.

Posso lamentá-lo como se fosse uma derrota pessoal.

Posso me conformar, dar de ombros e seguir adiante.

Ou posso tomar as medidas concretas que estão ao meu alcance para mudar a minha realidade — mudar de lugar, mudar de trabalho, mudar hábitos, reorganizar as finanças, estudar alguma coisa nova ou, simplesmente, começar arrumando a própria cama.

Talvez seja menos emocionante do que uma eleição.

Mas provavelmente produz efeitos muito mais concretos.

Porque, qualquer que seja o resultado das urnas, na segunda-feira a vida recomeça.

E, como dizia minha avó, todo dia continuará dando meio-dia lá em casa.

Então é seguir o barco.

Sem abandonar a política.

Mas sem entregar a ela a responsabilidade pela vida que cabe a nós construir.”

*Tercio Roberto Peixoto Souza é advogado