ARTIGO


Inteligência artificial e governança corporativa: tecnologia acelera estruturas, mas não substitui arquitetura decisória

A tecnologia tem ampliado a eficiência na tomada de decisões, na gestão de riscos e no monitoramento de processos dentro das empresas

Arquivo Pessoal

 

A inteligência artificial vem transformando de maneira significativa a forma como estruturamos projetos de governança corporativa.

Ferramentas cada vez mais robustas permitem organizar grandes volumes de informação, comparar documentos, identificar inconsistências, estruturar matrizes de responsabilidade, simular fluxos decisórios e acelerar a elaboração de políticas, regimentos, manuais e outros instrumentos de governança.

Isso é um avanço — e um avanço importante.

Os próprios Princípios de Governança Corporativa do G20/OCDE de 2023 reconhecem o potencial das tecnologias digitais para aumentar a eficiência e a eficácia dos mecanismos relacionados à governança, à supervisão e à gestão de riscos.

No Brasil, a 6ª edição do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC, também publicada em 2023, reforça uma concepção particularmente importante: governança é um sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos.

E talvez esteja justamente na palavra sistema uma das principais diferenças entre produzir documentos de governança e efetivamente desenhar governança.

Uma ferramenta tecnológica consegue trabalhar muito bem com referências, padrões e informações disponíveis. O desafio profissional começa quando precisamos compreender aquilo que não cabe integralmente em um modelo: como determinada organização realmente funciona.

Quem decide?

Quem deveria decidir?

Até onde deve ir a autonomia do CEO?

Quais matérias justificam intervenção do Conselho de Administração?

Onde termina gestão e começa supervisão?

Quais decisões exigem segregação de funções?

Em que ponto uma alçada excessivamente restritiva deixa de representar controle e passa a produzir ineficiência?

Como equilibrar autonomia executiva, accountability, gestão de riscos e proteção dos interesses societários?

Essas respostas não são universais.

Duas companhias com o mesmo porte, o mesmo setor econômico e estruturas societárias semelhantes podem demandar desenhos de governança bastante diferentes. Histórico societário, maturidade dos controles, perfil dos acionistas, estratégia, exposição a riscos, cultura decisória e dinâmica entre Conselho e gestão modificam profundamente a solução adequada.

É por isso que boas práticas precisam funcionar como uma luva, e não como uma peça de tamanho único.

O trabalho de governança está justamente em transformar princípios reconhecidos — transparência, integridade, equidade, responsabilização, sustentabilidade, independência, segregação e checks and balances — em mecanismos capazes de funcionar naquela organização concreta.

É nesse contexto que a inteligência artificial se torna particularmente poderosa.

Ela amplia capacidade analítica. Reduz trabalho mecânico. Permite testar alternativas com velocidade. Facilita benchmarking e consistência documental. Pode tornar projetos de governança mais eficientes e tecnicamente mais robustos.

Mas a tecnologia não elimina a necessidade de compreender estratégia, relações societárias, riscos e consequências das escolhas institucionais.

Ao contrário, quanto mais poderosa se torna a ferramenta, maior passa a ser o valor da pergunta correta, do julgamento profissional e da capacidade de contextualização.

No fim, talvez a transformação trazida pela inteligência artificial à governança seja justamente esta, menos tempo gasto simplesmente produzindo documentos e mais tempo dedicado ao que realmente importa, desenhar estruturas capazes de distribuir poder, autonomia, responsabilidade e controle de maneira coerente com a realidade e a estratégia de cada organização.

Nubia Costa é mestre em Economia e Inovação pela Universidade de Salamanca e Head de Compliance no Costa Oliveira Advogados.