JUSTIÇA


Busca e apreensão contra fontes de jornalista geram reação de entidades de imprensa e do direito

Associações apontam violação do sigilo profissional e risco à liberdade de imprensa após ordens judiciais em inquérito sobre o ministro Flávio Dino

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Entidades ligadas ao jornalismo e ao direito criticaram a operação de busca e apreensão autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), contra supostos informantes do jornalista maranhense Luís Pablo. As medidas judiciais, cumpridas com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR), apuram a obtenção e divulgação de dados a respeito do ministro Flávio Dino.

​A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) manifestou alarme nesta quarta-feira (12) diante de decisões para identificar e perseguir uma fonte do jornalista. A entidade declarou que a violação do sigilo profissional constitui grave ameaça ao trabalho da imprensa e estabelece um perigoso precedente no país.

​A SIP acrescentou que a ação afronta tratados internacionais e princípios fundamentais do jornalismo. Em declaração sobre o caso, o presidente da instituição, Pierre Manigault, considerou “especialmente grave que a investigação tenha permitido chegar até uma fonte jornalística por meio da análise dos dispositivos apreendidos de um jornalista”.

​O Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp) informou acompanhar com preocupação a ordem executada na terça-feira (11) contra Raimundo Cutrim, ex-secretário do Governo do Maranhão. A Polícia Federal (PF) indica Cutrim como informante de Luís Pablo.

​O Iasp frisou que o sigilo da fonte é garantia constitucional para assegurar o direito da sociedade à informação, sem constituir privilégio ou imunidade para ilícitos. “Medidas capazes de conduzir, direta ou indiretamente, à identificação de fontes jornalísticas exigem, portanto, rigoroso controle constitucional”, destacou a nota do instituto.

​A entidade também manifestou observação sobre a competência do STF no processo, ressaltando que o tribunal não deve substituir instâncias de investigação criminal. A nota conclui que “liberdade de imprensa, sigilo da fonte, devido processo legal e juiz natural não são obstáculos à investigação legítima, mas garantias constitucionais que limitam o exercício do poder estatal e devem ser rigorosamente preservadas”.

​Em nota conjunta na terça-feira, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) manifestaram profunda preocupação com a situação.

​”Casos de questionamentos a reportagens devem ser tratados dentro da lei, que prevê direito de resposta e indenizações. A violação do sigilo do profissional e de suas fontes leva a intimidações contra a imprensa que não condizem com o Estado democrático de Direito e o livre exercício do jornalismo”, posicionaram-se as três associações.

​No mesmo despacho de terça-feira, Moraes determinou medidas contra o advogado Diogo Diniz Lima, ex-secretário de Urbanismo e Habitação em São Luís. Apontado como informante, ele repassou R$ 100 mil ao jornalista para a quitação de um imóvel, segundo a decisão do relator.

​A apuração da PF começou em novembro do ano passado, após textos no blog de Luís Pablo, espaço autodenominado como “jornalismo independente que incomoda o poder”. As publicações abordavam o suposto uso de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) e do governo estadual por Flávio Dino.

​Conforme a PF, Cutrim atuava como secretário de Assuntos Legislativos da Secretaria de Articulação Política do Maranhão quando obteve informações em sistemas de acesso restrito para repassar ao blogueiro.

​Diante dos fatos, Dino solicitou a ampliação da segurança própria e de seus familiares. O ministro relatou a interlocutores ter sido vítima de perseguição no estado do Maranhão.

​Moraes foi designado relator do caso em 15 de julho, em razão da condução do inquérito das fake news na Suprema Corte.