POLÍTICA


PCC da Faria Lima: desembargadora aponta existência de ‘duas facções em uma’ 

Investigações recentes revelam a expansão dos mecanismos de lavagem de dinheiro ligados ao PCC por meio de fintechs, empresas e influenciadores, enquanto a facção mantém sua estrutura voltada ao narcotráfico e a outras atividades criminosas. 

Foto: reprodução/ al

Com mais de três décadas de atuação e presença que ultrapassa as fronteiras brasileiras, o Primeiro Comando da Capital (PCC) diversificou sua estrutura operacional e financeira. Segundo a desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), as investigações mais recentes indicam um fenômeno que pode ser definido como a existência de “duas facções em uma”: uma ligada diretamente ao narcotráfico e outra voltada à movimentação e ocultação de recursos ilícitos. 

Em entrevista ao portal ‘Metrópoles’, a magistrada afirmou que é preciso diferenciar o núcleo tradicional da organização criminosa, associado à liderança de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, da estrutura financeira responsável por dar aparência legal ao dinheiro obtido por meio de atividades ilegais. 

“Uma coisa é o PCC do Marcola, que está dentro do sistema prisional. Outro PCC, que todo mundo coloca no mesmo contexto, é o PCC da Faria Lima, que não é exatamente a facção criminosa tradicional”, afirmou. 

De acordo com Ivana David, o braço financeiro da organização entra em ação quando os lucros obtidos pelo tráfico de drogas e outros crimes precisam ser incorporados ao sistema econômico formal. 

“O produto do crime, principalmente do tráfico de drogas, é investido em fintechs, bancos e instituições financeiras, algumas delas localizadas na região da Faria Lima. São estruturas diferentes, mas que acabam se conectando”, explicou. 

As investigações que atingiram figuras públicas, entre elas o cantor MC Ryan SP e a influenciadora e advogada Deolane Bezerra, ajudaram a expor o modelo utilizado para a lavagem de dinheiro. Conforme apuram as autoridades, celebridades e influenciadores seriam utilizados para conferir aparência de legalidade às movimentações financeiras. 

“(O crime organizado) busca fintechs e influenciadores que, de alguma forma, dificultam o rastreamento dos recursos”, destacou a desembargadora. 

Faria Lima no radar das investigações 

Nos últimos meses, a região da Avenida Faria Lima, principal centro financeiro do país, tornou-se alvo de diversas operações voltadas ao combate à lavagem de dinheiro associada ao PCC. 

Entre as principais ações estão as operações Carbono Oculto, Fluxo Oculto, Compliance Zero, Quasar e a investigação que resultou no fechamento de uma suposta central de fraudes instalada na região. 

A Operação Carbono Oculto, realizada em agosto do ano passado, teve pelo menos 65 alvos localizados na avenida e em seu entorno. Já a Operação Fluxo Oculto, deflagrada recentemente como desdobramento da Carbono Oculto, mirou empresários e operadores suspeitos de reorganizar um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção no setor de combustíveis. 

Segundo a Receita Federal, seis novas fintechs teriam sido identificadas atuando como bancos paralelos utilizados para movimentar recursos da organização criminosa. 

Também neste ano, a segunda fase da Operação Compliance Zero cumpriu diligências em endereços da Faria Lima durante a investigação sobre fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. No mesmo período, o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) desarticulou uma central de fraudes que funcionava na avenida e que, segundo a polícia, utilizava o endereço para transmitir credibilidade às cobranças ilegais. 

Outra investigação, conduzida pela Polícia Federal, apontou ainda que a gestora Reag Investimentos teria desempenhado papel relevante na ocultação de bilhões de reais supostamente vinculados ao PCC. 

Ordens mantidas de dentro dos presídios 

As investigações também mostram que a liderança da facção continua exercendo influência mesmo a partir de presídios federais de segurança máxima. 

A Operação Vérnix, que resultou na prisão de Deolane Bezerra e teve Marcola entre os alvos, reforçou a suspeita de que integrantes da cúpula seguem transmitindo orientações para o grupo criminoso. 

Bilhetes apreendidos na Penitenciária de Presidente Venceslau II, em 2019, indicaram supostas ordens atribuídas a Marcola. A partir das apurações, a polícia identificou vínculos entre uma transportadora localizada próxima ao presídio e integrantes ligados à alta cúpula da organização. 

Mensagens encontradas no celular de um dos responsáveis pela empresa revelaram conversas com Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola, sobre a administração de bens e recursos ligados ao líder da facção. 

Embora destaque que não existe contato direto entre Marcola e seu irmão Alejandro Herbas Camacho dentro da Penitenciária Federal de Brasília, Ivana David reconhece que mecanismos indiretos de comunicação continuam sendo utilizados. 

Segundo ela, familiares, advogados e outros intermediários acabam servindo como elo entre os presos e o mundo exterior, permitindo que ordens e orientações continuem circulando. 

“Os presos ainda conseguem transmitir ordens e contraordens e, de alguma forma, manter um controle, ainda que muito delicado, sobre a organização criminosa. Essa comunicação continua ocorrendo por meio de familiares e advogados”, concluiu a desembargadora. 

Confira:

@metropolesoficial ➡️ PCC DA FARIA LIMA Surgida há mais de 30 anos no sistema prisional paulista e com atuação intercontinental, o Primeiro Comando da Capital (PCC) ampliou seu modelo de negócio baseado no narcotr4fic0 e 4rmas, bem como seus mecanismos para lavar dinheiro. Investigações recentes mostram braços da facção criminosa instalados na Avenida Faria Lima, o maior centro financeiro do país. O fenômeno demonstra a existência de duas facções em uma, segundo Ivana David, desembargadora do Tribunal de Justiça de #SãoPaulo (TJSP). “Uma coisa é o PCC do Marcola [Marco Willians Herbas Camacho], que está dentro do sistema prisional. Outro PCC, que todo mundo joga no mesmo bolo, é o PCC da Faria Lima, que não é a facção criminosa”, diz Ivana em entrevista ao Metrópoles. “É a lavagem de dinheiro, produto e proveito do crime, na sua maioria de tráfico de drogas, que é investido, por exemplo, em fintechs, bancos, instituições financeiras, algumas delas sitiadas ali na região da Faria Lima. São coisas diferentes”, destacou. As operações recentes que miram celebridades, como o funkeiro MC Ryan SP e a advogada e influenciadora Deolane Bezerra, expõem esse mecanismo adotado pela facção para branquear os valores advindos do narcotráfico e outras atividades ilícitas. Nesse enredo, haveria um fator complicador: o anúncio de que os Estados Unidos vão declarar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, o que, segundo autoridades de segurança pública de São Paulo, podem dificultar o combate ao crime organizado. Dentre outros famosos, Ryan e Deolane foram presos recentemente por suspeita de envolvimento com a organização criminosa. Segundo as investigações, ambos atuam justamente na fase de lavagem do dinheiro captado pela facção. Para a polícia, a escolha por influenciadores é uma estratégia para dar legitimidade ao montante movimentado. “[O crime organizado] procura fintechs, procura influencers, que, de alguma forma, dificultam o rastreio dos valores”, afirma a desembargadora. #Metrópoles ♬ som original – Metrópoles Oficial