POLÍTICA


Fuga de Flávio Bolsonaro aos EUA fortalece apoio de militares a Tarcísio de Freitas

Integrantes das Forças Armadas avaliam o governador de São Paulo como possível nome para a disputa presidencial de 2030

Foto: Reprodução/Instagram

 

A decisão do senador Flávio Bolsonaro (PL) de fugir do Brasil rumo aos Estados Unidos após a derrota na eleição presidencial de 2026 provocou insatisfação entre integrantes das Forças Armadas e contribuiu para aproximar setores militares do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O episódio também reforçou a possibilidade de o ex-capitão do Exército se tornar uma alternativa da direita para a Presidência da República em 2030, em meio ao desgaste da família Bolsonaro entre os militares.

De acordo com a Folha de S.Paulo, integrantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, entre eles ex-comandantes e oficiais que passaram por diferentes governos, interpretaram a saída de Flávio como um gesto de deslealdade com os eleitores que apoiaram sua candidatura. Os militares ouvidos pela reportagem criticaram a decisão do senador de deixar o país sem reconhecer o resultado das urnas, além de divulgar uma carta contestando a derrota.

A reação chama atenção porque a chamada família militar, que reúne integrantes da ativa, da reserva, reformados e seus familiares, havia demonstrado apoio expressivo a Flávio Bolsonaro na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mesmo entre oficiais que tinham ressalvas ao bolsonarismo, o antipetismo acabou prevalecendo durante a campanha eleitoral.

Um oficial-general que atuou no Congresso Nacional e em diferentes governos comparou a atitude de Flávio à de um comandante que abandona seus subordinados. Na avaliação relatada à Folha, deixar o país sem dar explicações aos eleitores representa um comportamento contrário aos valores militares.

Outro oficial afirmou que a reprovação à postura do candidato derrotado não se limita às divergências políticas, mas envolve princípios como caráter, honra, lealdade e gratidão. Um terceiro entrevistado avaliou que a justificativa de perseguição política apresentada por Flávio não foi suficiente para afastar a decepção provocada por sua saída.

A mudança de percepção foi resumida por um ex-comandante de uma das Forças Armadas, que defendeu uma postura conciliadora do governo Lula e sintetizou as preferências que começam a ganhar espaço entre antigos colegas: “Menos Janja, mais Alckmin. Menos Bolsonaro, mais Tarcísio”.

O mesmo militar também declarou esperar que Lula tenha a “sabedoria de tentar pacificar o país”.

Tarcísio ganha força como alternativa ao bolsonarismo

O desgaste de Flávio Bolsonaro ocorre paralelamente a sinais de maior independência política de Tarcísio de Freitas em relação à família Bolsonaro. Reeleito governador de São Paulo, ele afirmou, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que considera disputar a Presidência da República após concluir seu segundo mandato, em 2030.

A possibilidade foi bem recebida por militares que já apontavam o governador como um dos nomes mais preparados da direita para concorrer ao Palácio do Planalto.

Além da proximidade ideológica com setores conservadores das Forças Armadas, Tarcísio reúne características valorizadas pelos oficiais consultados, como experiência na administração pública, passagem por diferentes governos federais e formação profissional ligada ao Exército.

O governador integrou as gestões de Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), período em que ocupou o Ministério da Infraestrutura. Sua atuação à frente do estado mais populoso e economicamente mais importante do país também é considerada um diferencial para uma eventual candidatura nacional.

Um dos principais pontos de identificação entre Tarcísio e os militares, no entanto, está em sua trajetória dentro das instituições do Exército.

Ele estudou na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e no Instituto Militar de Engenharia (IME), além de ter participado da missão de paz das Nações Unidas no Haiti, a Minustah, em uma companhia de engenharia.

Um coronel que recentemente passou para a reserva destacou as diferenças entre o percurso profissional de Tarcísio e o de Jair Bolsonaro.

Na avaliação do militar, enquanto o ex-presidente deixou o Exército em meio a circunstâncias controversas e à possibilidade de expulsão, Tarcísio construiu uma carreira reconhecida e ingressou no serviço público civil por meio de concurso.

Ao comparar as trajetórias, o coronel afirmou que Bolsonaro “saiu pela porta dos fundos, o Tarcísio saiu pela porta da frente, passando em concurso público”.

Para o oficial, a formação técnica e a experiência operacional do governador criaram uma ligação mais consistente com o Exército do que a mantida por Bolsonaro e seus filhos.

Militares apostam em rompimento entre Tarcísio e o clã Bolsonaro

Apesar de ter ingressado na política nacional com o apoio de Jair Bolsonaro e de evitar embates públicos com seu padrinho político, Tarcísio é visto por parte dos militares como uma liderança com condições de desenvolver um projeto presidencial próprio.

Entre os oficiais ouvidos pela reportagem, a expectativa é de que um eventual afastamento entre o governador e a família Bolsonaro aconteça durante a preparação para as eleições de 2030.

Nesse contexto, militares mais alinhados à ala radical do bolsonarismo devem continuar fiéis à família do ex-presidente. A avaliação predominante entre as fontes consultadas pela Folha, porém, é de que a maioria dos integrantes das Forças Armadas tenderia a acompanhar Tarcísio.

A possível mudança representa uma diferença em relação ao cenário da campanha de 2026, quando Flávio Bolsonaro manteve um apoio significativo entre os militares, inclusive entre aqueles que já demonstravam críticas à atuação política de seu pai.

Naquele momento, a rejeição ao PT e o descontentamento com decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram peso importante na adesão à candidatura do senador.

Julgamento da trama golpista mantém tensão na caserna

A atuação do STF nos processos que investigam a tentativa de golpe de Estado e os ataques de 8 de janeiro de 2023 continua entre os principais pontos de insatisfação de integrantes das Forças Armadas.

Segundo a reportagem, militares entrevistados avaliam que o julgamento da trama golpista adotou um tratamento desfavorável aos acusados e questionam a proporcionalidade das penas estabelecidas.

Parte dos oficiais defende que os atos de 8 de janeiro sejam classificados como uma “baderna”, fazendo uma comparação com episódios de depredação protagonizados por movimentos sociais de esquerda em Brasília.

Essa interpretação, entretanto, diverge das conclusões do STF sobre a tentativa de ruptura institucional.

Mesmo entre os militares que consideram necessária a responsabilização dos envolvidos na articulação golpista, existem críticas aos critérios utilizados para definir o tamanho das condenações.

Dos 29 condenados pelo Supremo no processo principal da trama golpista, 21 são integrantes das Forças Armadas. Dois tiveram as penas substituídas por multas. Também receberam condenações cinco coronéis da Polícia Militar do Distrito Federal por omissão durante os ataques às sedes dos Três Poderes.

As decisões judiciais aumentaram o desgaste institucional das Forças Armadas e incentivaram iniciativas para diminuir o envolvimento direto de militares em disputas político-partidárias.

Aproximação com José Múcio reforça imagem de moderação

Outro aspecto considerado positivo pelos militares foi o reconhecimento de Tarcísio ao trabalho do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.

Durante entrevista ao Estado de S. Paulo, o governador elogiou a atuação do ministro, que mantém diálogo próximo com os comandantes das Forças Armadas e procura diminuir os atritos entre o governo federal e as instituições militares.

Múcio e os atuais comandantes têm defendido a redução de manifestações políticas por parte de militares da ativa, além de tentar desestimular a participação desses integrantes em disputas eleitorais.

Apesar das iniciativas, a presença de militares e profissionais das forças de segurança na política continua expressiva.

Um levantamento da Folha apontou que a quantidade de militares e policiais eleitos em 2026, incluindo integrantes da reserva e reformados, voltou a crescer e atingiu o mesmo patamar recorde registrado durante a ascensão política de Jair Bolsonaro.

Enquanto isso, segue sem avançar no Congresso Nacional a proposta de emenda à Constituição que prevê a transferência automática para a reserva de militares da ativa das Forças Armadas que registrarem candidaturas eleitorais. A medida enfrenta resistência dentro das próprias instituições.

A possibilidade de Tarcísio ganhar protagonismo também surge em um cenário no qual alguns oficiais reconhecem que os dois primeiros governos Lula foram favoráveis às Forças Armadas, principalmente pela disponibilidade de recursos destinados a investimentos estratégicos.

Esse reconhecimento, porém, não foi suficiente para modificar o apoio eleitoral de uma parcela expressiva dos militares a Flávio Bolsonaro em 2026.

Agora, a saída do senador para os Estados Unidos e sua resistência em reconhecer o resultado das urnas acrescentaram um novo fator à relação entre a família Bolsonaro e os militares. Para os oficiais ouvidos pela Folha de S.Paulo, o episódio abalou a confiança na liderança do grupo e abriu espaço para que Tarcísio de Freitas se fortaleça como possível alternativa presidencial no campo conservador.

Com informações da Folha de S.Paulo