ECONOMIA


Gigantes da tecnologia dos EUA ampliam dívidas ocultas que chegam a US$ 1,65 trilhão

Especialistas alertam para riscos de superinvestimento e possível desaceleração do mercado de IA

Foto: Reprodução/Meta

 

As empresas de tecnologia apostam que os lucros obtidos no futuro serão suficientes para compensar os compromissos assumidos atualmente. Até o fim de março, Microsoft, Alphabet e Amazon acumulavam cerca de US$ 1,45 trilhão em contratos para serviços de computação em nuvem e outras operações. O CEO da Amazon Web Services, Matt Garman, afirmou que os investimentos da companhia “não são especulativos”. As informações são do Valor Econômico.

As cinco empresas optaram por não comentar o crescimento de suas dívidas ocultas.

Os investidores institucionais também ganharam protagonismo nesse cenário. A Meta, por exemplo, criou uma joint venture com fundos administrados pela gestora americana Blue Owl Capital para construir um megadata center na Louisiana. Quando o projeto foi anunciado, em 2025, o custo estimado de desenvolvimento era de US$ 27 bilhões.

Ao adquirir uma participação de 20% na empresa responsável pela operação do data center e garantir o uso da estrutura por meio de um contrato de arrendamento, a Meta assegurou capacidade de computação, mas também ampliou sua exposição a obrigações fora do balanço.

A companhia também firmou um contrato que garante aos investidores cobertura de perdas caso o data center deixe de ser necessário e o contrato de arrendamento seja encerrado. Em 13 de julho, a Meta informou que o investimento total no empreendimento deve agora superar US$ 50 bilhões.

As gigantes da tecnologia já vêm recorrendo à emissão de títulos corporativos e de novas ações porque seus investimentos têm superado os lucros gerados. A captação adicional de recursos junto a investidores institucionais também contribui para um ambiente considerado excessivamente aquecido.

Em relatório divulgado em março, economistas do Banco de Compensações Internacionais (BIS) classificaram como “shadow borrowing” o mecanismo pelo qual empresas captam recursos de investidores institucionais sem ampliar a dívida registrada oficialmente em seus balanços. O BIS demonstrou preocupação com o risco de os projetos de data centers perderem força e de uma eventual frustração com a inteligência artificial contaminar o mercado.

Um executivo de uma firma japonesa de auditoria afirmou que cresce a preocupação de que o “peso financeiro real” dessas empresas seja “significativamente maior do que o que aparece em seus balanços”.

Embora em um contexto diferente do enfrentado atualmente pelas gigantes da tecnologia, a empresa de energia Enron entrou em colapso em 2001 após esconder dívidas fora do balanço por meio de uma rede de empresas de fachada. Mesmo quando as práticas contábeis seguem as regras, o aumento de joint ventures com pouca transparência pode elevar a desconfiança do mercado.

Grande parte dessas dívidas ocultas deverá aparecer nos balanços futuramente. À medida que os data centers entrarem em operação, as obrigações associadas aos projetos poderão se tornar mais concretas. Caso a demanda por inteligência artificial não cresça como o esperado e as taxas de utilização diminuam, esses ativos podem perder valor e gerar prejuízos.

Segundo o Nikkei, a atual indústria de inteligência artificial é sustentada, em parte, por uma demanda criada por investimentos circulares: Nvidia e grandes empresas de tecnologia investem em operadores de data centers e companhias de IA, e esse capital retorna na forma de compras de GPUs e pagamentos por serviços de computação em nuvem. Como a demanda efetiva ainda é difícil de medir, cresce o risco de superinvestimento em data centers.