ECONOMIA


El Niño deve aumentar volatilidade na produção e preços de alimentos

Relatório aponta que fenômeno tende a provocar impactos distintos sobre produtividade agrícola, sem necessariamente resultar em alta das commodities

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

O possível retorno do El Niño nos próximos meses deve aumentar a volatilidade da produção agrícola e dos preços dos alimentos, com efeitos variados entre culturas, regiões e países.

A avaliação é de um relatório do Santander, que aponta que o fenômeno climático tende a provocar impactos distintos sobre a produtividade agrícola, sem necessariamente resultar em uma alta generalizada das commodities.

Segundo o banco, episódios fortes do El Niño costumam favorecer a produção de soja e milho na Argentina e no Sul do Brasil, onde o aumento das chuvas beneficia o desenvolvimento das lavouras.

Em contrapartida, o Centro-Oeste brasileiro, principal região produtora de grãos do país, pode enfrentar períodos de estiagem e distribuição irregular das precipitações, reduzindo o potencial produtivo.
A análise mostra que, no caso da soja, o fator mais importante não é apenas o volume de chuva, mas sua distribuição ao longo do ciclo da cultura. A falta de precipitações em momentos críticos pode atrasar o plantio, reduzir a produtividade e comprometer a janela da segunda safra de milho.

O estudo também conclui que o El Niño não produz um efeito uniforme sobre a agricultura mundial. Em diversas culturas, como café, açúcar, trigo e algodão, os resultados variam conforme a localização geográfica, o nível de irrigação, decisões de plantio e até fatores econômicos, como o custo dos fertilizantes. Por isso, o principal efeito esperado é um aumento da volatilidade, e não uma tendência consistente de queda ou alta da produção global.

Na inflação, o Santander identifica um comportamento mais claro. O banco avalia que os alimentos in natura são os itens mais sensíveis aos choques climáticos provocados pelo El Niño, enquanto alimentos industrializados e semiprocessados tendem a manter comportamento mais próximo do observado em períodos de neutralidade climática.

A expectativa é que a inflação dos alimentos consumidos no domicílio atinja seu pico em fevereiro de 2027, ficando cerca de cinco pontos percentuais acima do nível projetado para agosto de 2026.
Esse movimento teria impacto aproximado de 0,75 ponto percentual sobre o IPCA, antes de perder força ao longo de 2027. Ainda assim, o fenômeno adicionaria cerca de 0,40 ponto percentual à inflação no acumulado do ano.

A conclusão do relatório é que o mercado deve acompanhar menos a direção dos preços agrícolas e mais o aumento da volatilidade. Para o agronegócio brasileiro, isso significa que oportunidades e riscos poderão coexistir entre diferentes regiões produtoras, culturas e cadeias produtivas, exigindo maior atenção às condições climáticas ao longo da safra 2026/27.