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Focos de incêndio em Manaus saltam 321% após o primeiro turno das eleições

Região concentra mais de 5 mil novos registros em 11 dias, com avanço de queimadas em florestas públicas

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

Os registros de focos de calor na região metropolitana de Manaus e em municípios vizinhos apresentaram aumento de 321% após o primeiro turno das eleições. O Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam) identificou 5.598 novos casos entre domingo (4) e quarta-feira (14) de outubro. O número equivale a 365 de todo o volume registrado em 2026.

A diretora de ciência do Ipam, Ane Alencar, aponta uma ligação temporal no avanço das chamas. “Não investiguei no local para saber se teve motivação política, mas os dados mostram uma coincidência”, afirma. Ela lista razões para a exploração rápida na área. “Pode ser porque as pessoas viram uma oportunidade de ocupar uma área pública sem gastar muito dinheiro, ou pode ser uma retaliação, ou as duas coisas”, acrescenta.

O cenário político atual envolve a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O petista registra os menores índices de desmate na Amazônia desde 1988. Na última semana, o candidato do PL prometeu o fim de entraves ambientais para produtores rurais com a afirmação de que “vai fazer o que quiser na sua terra”.

Para a pesquisadora, a prática facilita crimes ambientais na região. “O que a gente imagina é que as pessoas usaram fogo em áreas públicas para ocupar esses locais”, diz a diretora. Ela explica a dinâmica da ação. “É mais fácil desagradar a área com fogo sem ser pego, do que contratar pessoas para desmatar, com uso de trator e motosserra.”

Os dados têm base no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O levantamento abrange a capital e 18 cidades vizinhas. De janeiro até o dia 14 de outubro a região acumulou 15.674 focos de calor. O Ipam verificou que 39% dos focos ocorreram em Florestas Públicas Não Destinadas (FPNDs), áreas sem proteção formal.

Outros 22,6% dos focos atingiram terras públicas. Cerca de 77% dos casos ocorreram em áreas de vegetação nativa. Quase 80% das áreas desmatadas em FPNDs viram pastagens posteriormente.

O avanço das chamas coincide com os efeitos do El Niño. O fenômeno estende a estiagem e agrava a seca na Amazônia. Há bolsões de seca extrema em direção a Roraima e na região de Santarém (PA).

A crise climática atinge 104.690 famílias no estado, conforme balanço da Defesa Civil até quarta-feira (21). Quarenta e dois municípios estão em situação de emergência, outros 15 em alerta e cinco em atenção. O Corpo de Bombeiros atuou no combate a 23.527 focos entre 1º de junho e segunda-feira (20).

O governo federal anunciou reforço das Forças Armadas no domingo (19). Um decreto estadual proíbe o emprego de fogo por 120 dias, com ressalvas previstas em lei.