ECONOMIA


Possível venda da TIM Brasil movimenta bancos de investimento

Expectativa de venda ganhou força após o presidente-executivo da Poste Italiane, Matteo Del Fante, afirmar que a TIM Brasil não é essencial ao projeto da nova controladora

Foto: TIM

 

A possibilidade de venda da TIM Brasil após a chegada da estatal Poste Italiane ao controle da Telecom Italia já movimenta bancos de investimento, conforme apurou o Valor. Embora o governo italiano ainda não tenha batido o martelo sobre uma eventual venda e o ativo não esteja formalmente no mercado, interlocutores do setor trabalham com a perspectiva de que a operação brasileira possa ser colocada à venda. A informação é do site do Valor Econômico.

Segundo a publicação, a expectativa de venda ganhou força após o presidente-executivo da Poste Italiane, Matteo Del Fante, afirmar que a TIM Brasil não é essencial ao projeto da nova controladora. A declaração abriu espaço para discutir uma mudança societária, embora o executivo também tenha dito que a subsidiária não está à venda. Procurada, a TIM Brasil optou por não comentar o assunto.

Caso os italianos decidam se desfazer da TIM Brasil, a V.tal, controlada por fundos geridos pelo BTG Pactual, seria uma das principais candidatas a avaliar a aquisição, segundo fontes ligadas ao setor. Uma combinação reuniria a terceira maior operadora móvel do Brasil em número de clientes e uma plataforma de infraestrutura de fibra e banda larga. A indicação como potencial compradora não significa que exista proposta ou negociação em curso.

Ainda de acordo com o Valor, uma aquisição pela Vivo ou pela Claro enfrentaria obstáculos concorrenciais relevantes, por ampliar a concentração em um mercado que passou de quatro para três grandes grupos nacionais com a venda da operação de telefonia móvel da Oi, concluída em 2022. Anteriormente, em 2019, a Claro já havia comprado a Nextel.

Em agosto, a Vivo detinha uma participação de 37,8% no mercado de telefonia celular, enquanto as fatias de Claro e TIM Brasil estavam em 33% e 22%, respectivamente, conforme dados compilados pela consultoria Teleco. Ou seja, uma possível aquisição da TIM Brasil por uma de suas duas principais concorrentes resultaria numa operadora com “market share” superior a 50%. Esse cenário tende a favorecer compradores que preservassem a TIM como concorrente independente na telefonia celular.

O sinal público sobre o papel da subsidiária nos planos do grupo veio de Del Fante em uma conferência econômica em Roma, na terça-feira passada (27). O executivo classificou a TIM Brasil como lucrativa, mas não essencial à estratégia que orientou a aquisição da Telecom Italia. Acrescentou que pretende utilizar a operação de forma “tática” nos próximos meses, sem detalhar quais medidas poderiam ser adotadas.

Em relatório divulgado em 28 de outubro, os analistas Leonardo Olmos e Gustavo Farias, do UBS BB, ressaltam que a declaração de Del Fante “pode abranger uma série de desdobramentos para um ativo lucrativo e não essencial, incluindo uma monetização parcial, uma combinação estratégica ou, potencialmente, uma venda definitiva”.

“No curto prazo, o mais provável, o que tenho escutado de investidores tanto locais quanto estrangeiros, é ela emitir [dívida para pagar] um dividendo extraordinário e aumentar a alavancagem, colocar uma estrutura de capital mais alavancada na TIM Brasil. E, no médio e longo prazo, ficam bem abertas as possibilidades que são venda ou venda combinada com um casamento com uma empresa de banda larga ou grupo de empresas”, explicou Olmos em entrevista.

O projeto da Poste está concentrado na ampliação de sua presença em serviços digitais na Itália, aproveitando o relacionamento da Telecom Italia com clientes corporativos. O novo plano de negócios da combinação deve ser divulgado no primeiro trimestre de 2027 e poderá esclarecer o espaço reservado à operação brasileira.

A mudança de controle ocorreu por meio de uma oferta de aquisição e permuta de ações, seguida de compras no mercado. Conforme comunicado da TIM Brasil à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), essas operações elevaram a participação da Poste Italiane a aproximadamente 86,95% da Telecom Italia. Com isso, o Estado italiano passou a controlar indiretamente a subsidiária brasileira.

Uma eventual venda envolveria cifras expressivas. A Telecom Italia detém cerca de 68% da TIM Brasil, participação avaliada em aproximadamente R$ 31 bilhões, considerando o valor de mercado da operadora (R$ 45,6 bilhões) no fechamento de sexta-feira (30). O valor de uma transação dependeria das condições negociadas e de um eventual prêmio de controle.

Para fontes do setor, a complementaridade dos negócios colocaria a V.tal entre os potenciais compradores. A companhia tem uma rede de fibra que alcança mais de 22 milhões de residências, montada a partir da aquisição da infraestrutura óptica da Oi. Adicionalmente, adquiriu a carteira de clientes de banda larga fixa da Oi e rebatizou a operação de Nio. A V.tal reúne ainda infraestrutura de transporte de dados e cabos submarinos. Procurada, a V.tal informou que sempre observa oportunidades de mercado, mas frisou que não existe qualquer conversa em curso sobre o tema.

Uma associação com a TIM acrescentaria uma operação móvel de alcance nacional e poderia ampliar a oferta conjunta de serviços. O desenho dependeria, porém, da capacidade de financiamento e de um acordo sobre avaliação dos ativos, controle e governança. Também seria necessário examinar os efeitos sobre a atividade da V.tal de fornecimento de infraestrutura a outras operadoras.

Para Vivo e Claro, a dificuldade começaria na sobreposição com a TIM na telefonia móvel. Uma aquisição integral por qualquer uma das concorrentes reduziria de três para dois o número de grandes grupos nacionais no segmento.

Em 2022, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a divisão dos ativos móveis da Oi entre TIM, Vivo e Claro mediante compromissos concorrenciais. A decisão exigiu voto de qualidade da presidência, após empate entre os conselheiros. As medidas incluíram o desinvestimento de parte das estações rádio-base adquiridas e obrigações de oferta de serviços de atacado.

Na ocasião, o Cade já identificava elevada concentração com a redução de quatro para três grandes operadoras nacionais. Esse histórico indica que uma nova consolidação enfrentaria escrutínio rigoroso, embora a decisão dependesse da estrutura apresentada.

Do lado italiano, uma eventual venda teria de ser ponderada com a contribuição financeira da subsidiária. A TIM Brasil responde por quase metade do resultado operacional do grupo antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) e gera caixa.