JUSTIÇA


Alcance de Nikolas Ferreira no Instagram motiva denúncia contra a Meta no MPE

Levantamento aponta que dez vídeos do parlamentar somaram 410,5 milhões de visualizações e superaram o tráfego de estrelas internacionais

Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

​As organizações Sleeping Giants Brasil, Artigo 19 e CTRL+Z protocolaram uma representação no Ministério Público Eleitoral nesta sexta-feira (16). O grupo pede investigações sobre um possível favorecimento algorítmico em vídeos do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) no Instagram.

​A denúncia exige que a Meta libere dados internos da rede social. O objetivo é apurar se houve amplificação desproporcional do conteúdo do político durante a campanha eleitoral.

​O levantamento das entidades aponta uma performance atípica em dez publicações recentes no formato Reels. Esses vídeos somaram 410,5 milhões de visualizações.

​O montante representa quase o triplo das 137,3 milhões de visualizações registradas por 90 vídeos de outros nove parlamentares analisados. A mediana de visualizações do deputado alcançou 38,25 milhões por publicação.

​O resultado de Nikolas Ferreira supera as medianas de artistas como Selena Gomez (34,45 milhões), Kylie Jenner (25,8 milhões) e Justin Bieber (16,6 milhões). O desempenho ficou atrás apenas de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi entre os 30 perfis examinados.

​O estudo também identificou que todos os dez Reels do deputado ultrapassaram sua própria base de 23 milhões de seguidores. A proporção de visualizações por seguidor do parlamentar chegou a 166,3%.

​O índice equivale a 17,2 vezes a mediana dos parlamentares comparados. A taxa também representa 29,3 vezes a mediana dos maiores perfis brasileiros e 33,7 vezes a dos mundiais.

​As entidades questionam a compatibilidade deste desempenho com as regras do processo eleitoral. A Resolução TSE nº 23.610/2019 restringe a recomendação de conteúdo político em plataformas digitais.

​”Um dos princípios que regem o processo eleitoral é a paridade de armas. Se o Nikolas possuiu algum grau de privilégio, como isso pode ter afetado as eleições proporcionais em MG?”, pergunta o diretor jurídico da Sleeping Giants, Humberto Riberito.

​O diretor reforça a necessidade de apuração sobre o impacto nas urnas, pois o político elegeu outros 13 deputados. “E a gente tem indícios para que MPE faça uma investigação para entendermos o que aconteceu”, afirma.

​O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) expediu uma ordem sobre o caso nesta quinta-feira (15). O ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a Meta apresente as medidas aplicadas ao perfil do deputado desde 16 de agosto de 2026.

​A representação no MPE pede o histórico de distribuição dos conteúdos publicados desde janeiro de 2026. O documento solicita a entrega de métricas por vídeo, fontes de tráfego e registros de promoção paga no prazo de 48 horas.

​Os autores da denúncia ressaltam que visualizações não equivalem a pessoas alcançadas de forma individual. Uma mesma conta pode assistir a um vídeo múltiplas vezes.

​O levantamento não conclui uma ação deliberada da empresa em favor do deputado. As hipóteses incluem desempenho orgânico, circulação por compartilhamentos, impulsionamento pago ou distribuição privilegiada pelo sistema de recomendação.

​A Meta anunciou em 2024 o fim da recomendação de conteúdo político a usuários não seguidores das contas responsáveis pelas publicações. Procurada, a empresa informou que não comentará o levantamento nem a representação ao MPE.