ECONOMIA


Exportações do Brasil para a União Europeia sobem 23,5% com acordo provisório

Superavit comercial atinge 1,9 bilhão de dólares em quatro meses, enquanto eleições brasileiras e problemas ambientais criam incertezas no horizonte

Foto: reprodução/ Agência de Notícias da Indústria

As exportações do Brasil para a União Europeia somaram 20,4 bilhões de dólares entre maio e agosto de 2026, valor com alta de 23,5% em relação ao mesmo período de 2025. O avanço marcou os primeiros quatro meses de vigência provisória do acordo comercial entre o Mercosul e o bloco europeu.

No mesmo intervalo, as importações brasileiras de produtos europeus registraram crescimento de 6,2%, com um total de 18,5 bilhões de dólares. Com isso, o saldo bilateral alcançou superavit de 1,9 bilhão de dólares para o país, ante o deficit de 860,5 milhões de dólares observado em 2025.

O presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir Müller, destacou a expansão das vendas para o mercado europeu. “Em apenas quatro meses, o acordo transformou as relações entre o Mercosul e a União Europeia, com crescimento expressivo do comércio entre os dois blocos. No caso do Brasil, houve incremento nas vendas para a UE mesmo de produtos que não tiveram redução imediata de tarifas”, afirmou Müller.

Segundo a ApexBrasil, das 2 mil empresas apoiadas pela entidade, 300 iniciaram vendas para os países europeus e 1 ml diversificaram seus destinos. A pauta exportadora brasileira incluiu 65,4 milhões de dólares em novos itens sem histórico de vendas no período anterior, a exemplo de benzeno e transformadores de dielétrico líquido.

Müller defendeu o caráter estratégico da convergência entre os blocos econômica e culturalmente próximos. “Enquanto alguns países aumentam as incertezas e estimulam a fragmentação, Brasil, dentro do Mercosul, e União Europeia priorizam a estabilidade e a previsibilidade”, frisou o presidente da ApexBrasil.

Apesar dos resultados no comércio, o cenário eleitoral de outubro no Brasil insere dúvidas sobre o cumprimento das metas ambientais do tratado, previstas para o final de 2026. De acordo com a especialista, a candidatura de Flávio Bolsonaro apresenta discurso menos rígido sobre a redução do desmatamento. “Os europeus não abrem mão dos compromissos com o meio ambiente”, destacou Monica de Bolle.

Caso ocorra a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a analista prevê o aumento de divergências diplomáticas na América do Sul. “Temos de lembrar que, em 2027, o presidente da Argentina, Javier Milei, tentará se manter no poder. E estimular a rivalidade com Lula será uma de suas bandeiras”, apontou a pesquisadora.

No plano interno do Mercosul, a ausência de diretrizes para a divisão de cotas europeias de açúcar e carne gera fricção entre os parceiros. O gerente de Comércio Internacional da Consultoria BMJ, Josemar Franco, explicou que a agilidade alfandegária do Paraguai garante vantagem no preenchimento do volume permitido.

“O acordo foi assinado sem que Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai definissem entre eles como seria a repartição das cotas definidas pela UE para produtos como carnes e açúcar”, afirmou Franco. O especialista acrescentou que o Paraguai “se recusa a discutir a distribuição das cotas, o que é um problema, sobretudo, para o Brasil, o maior dos parceiros”.

Outro entrave refere-se à aplicação de barreiras não tarifárias de caráter sanitário. Em setembro, a União Europeia suspendeu compras de carne bovina e de frango do Brasil sob alegação do uso de antimicrobianos vetados na Europa.

Para compensar eventuais prejuízos, o tratado prevê um painel de solução de controvérsias composto por três árbitros. O diplomata Mário Vilalva observou que o processo entre os integrantes exige diplomacia e tempo.

“No Mercosul, estamos diante de novas oportunidades, mas ainda não estamos seguros sobre como partilhar da maneira mais equânime seus benefícios”, frisou Vilalva. O diplomata complementou: “Além dos desafios técnicos, poderemos ter alguns tropeços à luz das questões político-ideológicas entre os países do bloco”.

O advogado especializado em comércio internacional Welber Barral projetou impactos positivos na atração de capital produtivo. “O acordo tem vantagens tanto na área comercial quanto para investimentos. A perspectiva é de que, com estabilidade regulatória, os investimentos também aumentem”, assinalou Barral.

A validação definitiva do texto depende da análise do Tribunal de Justiça da União Europeia, com parecer previsto até o final de 2027, seguido de votação no Parlamento Europeu. Vilalva demonstrou confiança quanto ao desfecho jurídico.

“Não são esperados grandes contratempos nesse processo, apenas alguns meses de espera”, pontuou o embaixador. Monica de Bolle avalia que a aprovação do tratado ganha relevância estratégica frente às tarifas aplicadas pelos Estados Unidos sob a liderança do presidente Donald Trump.

“O Mercosul é um dos caminhos para a Europa reduzir a sua dependência dos EUA”, concluiu a pesquisadora.