ECONOMIA


‘O varejo brasileiro já está na UTI e o destino é a morte’, diz fundador da Havan

Fundador da Havan critica concorrência com produtos chineses e aponta recorde de recuperações judiciais

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

 

O empresário Luciano Hang, fundador da Havan, fez um alerta sobre as dificuldades enfrentadas pelo comércio brasileiro e afirmou que o setor atravessa um dos períodos mais delicados dos últimos anos. Em entrevista divulgada pela Exame, ele relacionou o cenário ao aumento das recuperações judiciais e à concorrência com produtos importados da China.

“O varejo nacional já está mal, já está na UTI. E é fatal, muitas e muitas empresas nacionais vão morrer. Inclusive fábricas”, diz Hang.

Na avaliação do empresário, um dos principais problemas está na diferença de tributação entre produtos importados por empresas brasileiras e mercadorias comercializadas por plataformas asiáticas. Hang afirma que a carga sobre produtos importados pela Havan pode chegar a até 120%, enquanto concorrentes estrangeiros teriam vantagens tributárias.

“Se eu importo um produto, eu pago de 80% a 120% de impostos. E eles estão trazendo mercadoria da China com zero de imposto. Isso é uma carnificina”, afirma Hang.

O empresário também critica os impactos dessa concorrência sobre a geração de empregos e a indústria nacional. Para ele, o avanço das importações ameaça não apenas o comércio, mas toda a cadeia de fornecedores e fabricantes brasileiros.

“Nós estamos exportando os empregos dos brasileiros para a China. Quem está muito feliz com a lei aprovada aqui no Congresso Nacional são os chineses”, diz Hang.

Os números ajudam a dimensionar o momento de pressão enfrentado pelo setor. De acordo com dados da Serasa Experian, 977 empresas entraram com pedidos de recuperação judicial em 2025, envolvendo 2.466 CNPJs, o maior número da série histórica. Já nos três primeiros meses de 2026, foram registrados outros 194 pedidos.

Apesar do cenário, a Havan encerrou 2025 com faturamento de R$ 18,5 bilhões e lucro recorde de R$ 3,4 bilhões. A companhia também afirma operar sem dívidas bancárias, resultado de uma estratégia adotada por Hang há cerca de dez anos, quando a empresa reduziu o ritmo de expansão e passou a priorizar o financiamento do crescimento com recursos próprios.

“Eu segurei os nossos investimentos, paguei todos os bancos, não temos dívidas. Nós financiamos o nosso crescimento com dinheiro próprio”, diz Hang.

A decisão, segundo o empresário, foi influenciada pela experiência vivida pela companhia durante a desaceleração econômica de 2015 e 2016, depois de um período de forte crescimento. Mesmo diante das dificuldades apontadas para o varejo, a Havan pretende chegar a 203 lojas ainda neste ano. Hang afirma ainda que vê potencial para ampliar a rede para entre 300 e 400 megastores no país, mantendo um ritmo próximo de dez novas unidades por ano.

O empresário também citou os efeitos provocados pela crise de grandes redes, como Casas Bahia, Americanas e Marabraz, sobre fornecedores e prestadores de serviços. Na avaliação dele, a retração dessas empresas acaba atingindo outros elos da cadeia, especialmente a indústria têxtil, e pode levar pequenos e médios negócios a enfrentar dificuldades nos próximos meses.

“É muito triste o que eu sinto dos nossos fornecedores, principalmente na cadeia têxtil, de onde eu faço parte. Muitas empresas não vão aguentar os próximos meses e os próximos anos. Elas vão sucumbir”, diz Hang.