POLÍTICA


Caso Master: investigação revela espionagem, vazamentos e rede de fundos envolvendo Vorcaro

Apuração ainda aponta a existência de uma complexa rede formada por pelo menos 216 fundos e 143 empresas

Foto: Reprodução/YouTube

 

Espiões contratados por Daniel Vorcaro já tinham conhecimento, desde 23 de julho do ano passado, de que investigadores estavam próximos de concluir o esquema de fraudes relacionado à tentativa de aquisição do banco Master pelo BRB (Banco de Brasília). As informações são da Folha de S.Paulo.

Naquela data, hackers conseguiram acessar documentos do caso armazenados no computador do procurador Gabriel Pimenta, responsável pela investigação conduzida pelo MPF (Ministério Público Federal). O material, de acesso restrito, foi parar no dia seguinte no celular do ex-banqueiro.

O acesso irregular foi identificado dias depois, durante uma varredura feita pela área de tecnologia do MPF. Ainda assim, segundo a reportagem, o esquema de espionagem continuou operando.

Mesmo sob nível máximo de sigilo judicial, Vorcaro também teria sido informado antecipadamente sobre a ordem de prisão expedida pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, no dia 17 de novembro, no âmbito da operação Compliance Zero, que apurava a negociação de R$ 12,1 bilhões em carteiras de crédito com o BRB.

De acordo com relatos, o vazamento desencadeou uma reação do grupo ligado ao ex-banqueiro, com movimentações consideradas atípicas pelos investigadores. Entre elas, a tentativa de obtenção de autorização para um plano de voo com destino a Malta, enquanto a defesa atuava para suspender possíveis medidas cautelares.

No mesmo dia, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master. Para investigadores, a iniciativa pode ter sido usada como estratégia para viabilizar a saída do país.

Paralelamente, Vorcaro participou de uma reunião por videoconferência com integrantes da cúpula do Banco Central, onde mencionou negociações com investidores estrangeiros e uma possível viagem a Dubai. A movimentação aumentou suspeitas de tentativa de fuga, especialmente após o pedido de antecipação do encontro.

Enquanto isso, a Polícia Federal monitorava os passos do empresário e identificou ao menos três planos de voo distintos. A defesa nega qualquer intenção de deixar o país de forma irregular.

Mensagens encontradas posteriormente indicam troca de informações com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado pela PF como operador de um grupo envolvido em monitoramento e obtenção de dados. Ele morreu em março, após tentativa de suicídio em uma cela da corporação em Minas Gerais.

Vorcaro acabou preso no aeroporto de Guarulhos na noite de 17 de novembro, no mesmo dia em que o Banco Central aprovou a liquidação do banco Master. A medida foi anunciada oficialmente no dia seguinte.

Segundo o BC, a instituição enfrentava uma crise severa de liquidez, com práticas consideradas irregulares, incluindo cessão de créditos inexistentes e descumprimento de normas.

A investigação também aponta a existência de uma complexa rede formada por pelo menos 216 fundos e 143 empresas. Parte desses fundos, ligados à gestora Reag, concentrava ativos de difícil avaliação, como créditos problemáticos e créditos de carbono, que teriam sido utilizados na estrutura das fraudes.

Esses ativos eram avaliados em valores elevados, inflando o patrimônio dos fundos. Os recursos obtidos eram direcionados a outras empresas e fundos, alimentando o esquema. Em um dos casos, o dinheiro teria sido usado para adquirir uma mansão de R$ 36 milhões em Brasília. Procurada pelo jornal, a defesa de Vorcaro não se manifestou.