AGRO


Brasil não tem onde armazenar 40% da supersafra de grãos

Dificuldades financeiras do setor podem ser agravadas pela guerra no Oriente Médio

Foto: Ascom/Aiba

 

O Brasil tem hoje capacidade para armazenar apenas 61,7% da produção de grãos, percentual que representa o menor nível em duas décadas e evidencia o atraso da infraestrutura diante do crescimento do agronegócio. Segundo estimativas da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, o país deverá registrar em 2026 o maior déficit de armazenagem da série histórica. As informações são do jornal O Globo.

A projeção indica que a capacidade de estocagem ficará 135,4 milhões de toneladas abaixo da produção esperada, estimada em 353,4 milhões de toneladas. Os cálculos foram elaborados pela CNA com base em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Em meio a um cenário de crise financeira no agronegócio — que pode se intensificar com tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã — especialistas avaliam que a ampliação da rede de armazéns seria fundamental para melhorar a comercialização e o escoamento de mais uma supersafra brasileira.

A situação contrasta com a realidade de países concorrentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, a capacidade de armazenagem chega a cerca de 130% da produção, o que significa um excedente de estocagem de aproximadamente 30%. No Brasil, duas décadas atrás o cenário era bem diferente: em 2006, o déficit era de apenas 500 mil toneladas, com capacidade equivalente a 99,6% da produção nacional.

Desde então, a produção agrícola brasileira triplicou, impulsionada pela expansão das fronteiras agrícolas e pelos avanços tecnológicos em maquinário e sementes. A infraestrutura logística e de armazenagem, no entanto, não acompanhou o mesmo ritmo de crescimento.

Especialistas apontam que os investimentos abaixo do necessário estão ligados a fatores como juros elevados, dificuldades de gestão e incentivos que estimulam decisões de curto prazo no setor.

Sem estrutura suficiente para guardar a produção, muitos produtores acabam sendo obrigados a vender ou transportar os grãos logo após a colheita. Nesse cenário, caminhões acabam funcionando como “armazéns sobre rodas”, aumentando a pressão sobre portos, ferrovias e o transporte rodoviário.

Produtor que cultiva soja, milho e trigo em 500 hectares na Fazenda Paraíso, em Luiziana (PR), João Luiz Ferri disse ao jornal O Globo que a falta de armazenagem reduz o poder de negociação no mercado.

“O produtor acaba ficando refém de todo mundo. Todo mundo quer abocanhar um pouco do lucro do produtor, desde o frete até as tradings”, afirma.