ELEIÇÕES


Flávio Bolsonaro descarta cortes no INSS após equipe projetar ajuste de R$ 250 bilhões

Promessa de preservação do piso previdenciário e desoneração fiscal entra em choque com o plano de corte de gastos apresentado ao mercado financeiro

Foto: INSS

Nesta quinta-feira (8), o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que manterá o reajuste das aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) acima da inflação. A declaração ocorre após a divulgação de que sua equipe estuda um pacote de contenção de despesas obrigatórias de R$ 250 bilhões, valor equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB).

“Eu não vou fazer economia em cima de quem precisa, das pessoas mais carentes desse Brasil. Aposentado, fique tranquilo, não caia nessa fake news do PT de que eu vou acabar com o reajuste da aposentadoria”, declarou Flávio Bolsonaro nesta quinta.

Em abril, propostas para a desvinculação do piso e o fim do ganho real para aposentados já circulavam entre integrantes da equipe da candidatura. O senador negou a intenção na época e reiterou a postura ao longo da campanha.

A preservação desses benefícios contrasta com o plano apresentado a representantes do mercado financeiro, com a previsão de ajuste fiscal mínimo de 1,5% do PIB, valor superior a R$ 200 bilhões. Analistas do setor avaliam que uma meta desse porte exige cortes em despesas sociais e previdenciárias.

Oficialmente, a campanha menciona a redução de cargos e ministérios, a venda de imóveis da União e o combate a fraudes em benefícios. A redução de gastos tributários também integra as opções, embora com alcance limitado e resistência política.

Além disso, Flávio Bolsonaro sinalizou a intenção de aplicar uma redução em impostos, desonerar a folha de pagamentos e interromper a reforma tributária para ajustes de rota. Em entrevista ao SBT News, o candidato também garantiu a manutenção dos pisos constitucionais da saúde e da educação e a vinculação do salário mínimo.

Diante de sinalizações opostas, a equipe do candidato diverge sobre a velocidade do plano fiscal em um eventual governo. Uma ala defende um arrocho inspirado nas medidas do presidente da Argentina, Javier Milei, com apoio da maioria de direita eleita na Câmara dos Deputados e no Senado para a aprovação de Propostas de Emenda à Constituição a partir de 2027.

Outro grupo prefere um ajuste gradual com foco inicial em medidas moralizantes, como o fim de supersalários. Essa corrente aposta na reação do mercado financeiro para a queda nas taxas de juros e a desaceleração da dívida pública.

Um assessor do candidato informou, sob condição de anonimato, que o tamanho do ajuste dependerá do resultado do segundo turno e das negociações para o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. O interlocutor confirmou que a estratégia da campanha proíbe o anúncio de detalhes do plano econômico antes do dia 25 de outubro.

Em nota oficial, a coordenação da campanha criticou a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e prometeu um ajuste concentrado nas despesas. “Desde 2023, o governo do PT insiste na fórmula oposta: aumenta impostos, amplia gastos e deixa a dívida pública crescer”, afirmou a nota.

A equipe também defendeu a racionalização de gastos sem o aumento da carga tributária. “Agiremos com responsabilidade, eficiência e coragem para racionalizar despesas e reconstruir as contas públicas. O Brasil será recolocado no caminho da prosperidade e desenvolvimento”, completou a coordenação.

O professor de economia da Fundação Dom Cabral, Bruno Carazza, analisou que as contradições do programa eliminam o espaço para a execução do ajuste fiscal. O economista destacou que o Orçamento atual possui forte comprometimento com despesas obrigatórias, o que exige escolhas impopulares para o cumprimento das metas.

Já o ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Gesner Oliveira, responsável por elaborar as diretrizes iniciais do plano, afirmou que a ausência de detalhamento é comum em período eleitoral. Ele ressaltou que o mercado enxerga um compromisso claro da candidatura contra a expansão contínua da relação dívida/PIB.