ECONOMIA


Preço do cacau desaba, mas chocolate chega mais caro na Páscoa

Segundo IPCA-15, o preço dos chocolates subiu 24,9% desde a última Páscoa

Foto: Reprodução/Freepik

 

A recente desvalorização do cacau no mercado internacional não acompanhou o valor do chocolate na Páscoa deste ano, com um aumento de 24,9% nos preços desde a última celebração. O crescimento, apurado pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) entre abril de 2025 e março de 2026,  é justificado pelo repasse atrasado da alta da matéria-prima até os consumidores.

A variação vai na contramão da cotação internacional do cacau. Desde a última Páscoa, o valor dos contratos futuros da matéria-prima para fabricação dos chocolates recuou 64%. Segundo Anna Paula Losi, presidente-executiva da AIPC (Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau), a variação reflete a normalização da oferta do fruto.

O cacau passou a cair após fim dos problemas nos países produtores. Em 2024, as condições climáticas adversas na África Ocidental, região responsável por 70% do cultivo mundial do fruto, e a infestação do fungo Vascular Streak Dieback nas plantações da Costa do Marfim e Gana limitaram a oferta. Como consequência, o preço do cacau atingiu o recorde de US$12.646 por tonelada.

A cadeia produtiva justifica atraso nos repasses ao consumidor. Até chegar às gôndolas, os derivados do cacau passam por um ciclo defasado. Jorge Ferreira, professor de administração da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), explica que o movimento reflete um repasse do “choque de custos”, com os contratos firmados quando o custo da matéria-prima era mais elevado. 

Apesar das altas nos preços, a indústria aumenta a produção. A Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas) relata que o volume de ovos fabricados para a Páscoa deste ano aumentou em 1 milhão de unidades. “Nossa expectativa é bastante positiva, porque a Páscoa é sempre nossa principal ocasião de consumo”, afirma Jaime Recena, presidente-executivo da associação.

O próximo ciclo produtivo contribui para a redução dos preços. Losi relata que as oscilações do cacau no cenário internacional levam ao menos seis meses para chegar aos consumidores. “Do mesmo jeito que lá atrás, quando subiu no início de 2024, não vimos um reflexo imediato [nos preços], essa queda atual também vai demorar para refletir no mercado final”, afirma.

Por outro lado, a limitação da importação do cacau ameaça a possível queda nos preços. O Ministério da Agricultura suspendeu temporariamente os desembarques de cacau da Costa do Marfim, maior produtor mundial da amêndoa. A restrição não é bem recebida pelo setor, que alerta para a dependência da indústria nacional do cacau importado.