ECONOMIA


Economistas apontam inconsistências na explicação do BC sobre atraso no controle da inflação

Especialistas entendem que autoridade optou por estratégia de cortes intermitentes por conta da pressão dos gastos fiscais, mas ainda há pontos em aberto

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

 

A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (23), revelou detalhes do raciocínio por trás do corte de 0,25 ponto percentual na Selic. Analistas de grandes bancos e gestoras concluíram que o Banco Central fez uma escolha deliberada de proteger a atividade econômica no curto prazo, ao custo de deixar a inflação convergir para a meta com mais atraso.

No entanto, as razões para tomar essa decisão ainda não estão bem definidas. O Goldman Sachs avalia que, no dilema de curto prazo entre o controle de preços e o nível de atividade, o Copom “está se inclinando mais na direção de proteger a atividade do que em uma estratégia mais assertiva focada na inflação”.

Para o Itaú BBA, a ata passa um sinal claro de que “qualquer espaço que ainda exista para a flexibilização está se esgotando rapidamente”. No entanto, “a ata do Copom não trouxe o esclarecimento esperado sobre o deslocamento do horizonte relevante e manteve a tônica de uma comunicação confusa”, pontua Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos.

“A ata reforça a percepção de uma comunicação confusa por parte do Comitê, com sinais mistos sobre atividade, inflação e condução da política monetária”, reforça Gabriel Pestana, economista-sênior da Genial Investimentos.

Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB, concorda: “o Banco Central apresenta muito mais argumentos que justificariam uma manutenção ou até uma postura mais dura sobre os juros do que elementos que sustentem a continuidade dos cortes.”
O documento detalha que o Comitê avaliou diferentes trajetórias possíveis para a Selic antes de decidir pelo corte. Levar a inflação à meta no horizonte original exigiria movimentos abruptos na direção e na magnitude dos juros, o que poderia incluir altas seguidas de quedas, na avaliação do JPMorgan.

O Bank of America (BofA) reforça que o Comitê “rejeitou explicitamente cenários que exigiriam movimentos abruptos e de grande magnitude para trazer a inflação à meta”, por entender que isso provocaria volatilidade excessiva tanto nos preços dos ativos quanto na economia real.

A saída escolhida foi uma trajetória mais próxima do que o mercado já esperava, combinando pausas e retomadas no ciclo de cortes para entregar a inflação na meta apenas no primeiro trimestre de 2028.