ECONOMIA


Crise no IBGE provoca saída de principais responsáveis do órgão às vésperas da divulgação do PIB

Exonerações e pedidos de desligamento ocorrem após afastamento da coordenadora da área

Foto: José Cruz/Agência Brasil

 

Faltando pouco mais de um mês para a divulgação dos resultados do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) enfrenta novos desdobramentos da crise que opõe servidores de carreira à atual presidência do órgão, comandada por Marcio Pochmann. A informação é do jornal O Globo.

Após o afastamento da pesquisadora Rebeca Palis do cargo de coordenadora das Contas Nacionais, revelado pela colunista Míriam Leitão, três servidores da área responsável pelo cálculo do PIB deixaram suas funções de gestão. Segundo funcionários, as mudanças podem afetar prazos de revisões e projetos em andamento.

Um dos desligamentos foi o de Cristiano Martins, gerente de Bens e Serviços do IBGE, que seria o substituto natural de Rebeca Palis. Ele pediu exoneração dos cargos em solidariedade à colega. Na sequência, também deixaram as funções Claudia Dionísio, gerente das Contas Nacionais Trimestrais, e Amanda Tavares, gerente substituta da área.

Com as saídas, a divisão perde parte de sua liderança mais experiente. Rebeca Palis ocupava a coordenação havia 11 anos, desde que substituiu Roberto Olinto, que posteriormente se tornou diretor de Pesquisas e presidente do IBGE. Sua nomeação, em 2014, foi considerada natural pelo corpo técnico, diante de sua atuação na área.

Apesar da debandada dos cargos de chefia, os servidores exonerados seguem atuando no instituto e nas Contas Nacionais, porém sem funções gerenciais. De acordo com fontes internas, o cálculo do PIB trimestral segue ocorrendo normalmente até o momento.

Esses mesmos servidores avaliam que o afastamento de Rebeca pode ter sido uma represália a gerentes e coordenadores que assinaram cartas públicas de repúdio à gestão de Pochmann, alvo de críticas desde 2024.

O que diz a direção do IBGE

Em nota, o IBGE informou que o servidor Ricardo Montes de Moraes assumiu a coordenação das Contas Nacionais. Ainda não há definição sobre os substitutos dos demais cargos vagos. O órgão não respondeu se as mudanças podem impactar o cronograma de divulgação do PIB.

Internamente, porém, funcionários avaliam que o momento é sensível, já que está em curso a atualização do ano-base do Sistema de Contas Nacionais, que deixará de ser 2010 e passará a 2021. O processo envolve revisão de metodologias, incorporação de novas bases de dados e atualização de séries históricas.

O sindicato da categoria, Assibge, criticou a condução da exoneração da coordenadora neste contexto.

“Nesse contexto, uma mudança de coordenação em pleno curso desse processo deveria ter sido conduzida de forma mais cuidadosa, independentemente da qualificação do servidor que ocupará o cargo, com transição previamente delineada e diálogo institucional com a então coordenadora, Rebeca de Pallis”, diz nota da entidade.

O sindicato também aponta possível impacto na revisão do Manual Internacional de Contas Econômicas e Ambientais, da qual Rebeca participava como representante do Brasil em um grupo de especialistas.

Clima de insegurança

O ano passado foi marcado por afastamentos e pedidos de exoneração em diferentes áreas do IBGE, em meio às divergências entre o corpo técnico e a atual gestão. Em novembro, gerentes da Comunicação Social foram substituídos por servidores recém-ingressos, e uma bibliotecária foi exonerada após questionar decisões administrativas.

Um funcionário, que pediu anonimato, relatou apreensão com o ambiente interno:

“A gente não sabe se a direção está planejando outras coisas. E entendemos que isso está relacionado com a questão dos documentos críticos à gestão que foram assinados. É um clima muito ruim. A área de análise do IBGE está sendo praticamente enfraquecida por essa gestão, que passou a mensagem de que não gosta de ninguém, que não confia em ninguém. E se acontecerem outras exonerações em outras áreas, o clima vai ficar horrível.”

Origem da crise

Um dos pontos centrais do conflito foi a criação da Fundação de Apoio à Inovação Científica e Tecnológica do IBGE (IBGE+), criticada por servidores e pelo sindicato, que veem risco à autonomia do instituto e à qualidade das pesquisas.

Desde então, funcionários realizam protestos e divulgam cartas públicas contra o que classificam como medidas autoritárias da atual gestão. Procurado, o presidente do IBGE não respondeu aos pedidos de comentário.