BAHIA


Mais de 2,2 milhões de estelionatos e só 4,8 mil presos: a segurança pública está preparada para o crime digital?

Enquanto golpes atravessam estados em segundos, a UFBA começa a formar 230 policiais, peritos e bombeiros de todo o país para investigar e provar o crime que acontece na tela do celular

Foto: divulgação

Na última quinta-feira (24), a Polícia Civil da Bahia prendeu em Porto Seguro dois suspeitos de participar de um golpe que desviou R$424,7 mil de uma empresa global de telecomunicações. Não houve arma nem assalto: bastou obter a chave de acesso à conta corrente da vítima. Para alcançar o grupo, a Operação Firewall precisou cumprir mandados em outros seis estados e no Distrito Federal. Um mês antes, em Salvador, uma funcionária de 26 anos foi presa suspeita de desviar quase R$3 milhões de cinco empresas, em cerca de 386 transferências por Pix feitas ao longo de pouco mais de um ano, usando contas da mãe e do marido.

Os dois casos, investigados na Bahia, são a face local de um problema que já aparece nas estatísticas nacionais. Em 2025, o Brasil registrou mais de 2,2 milhões de estelionatos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. Apenas 63.771 viraram processo, e 4.819 pessoas foram presas. O crime ficou mais rápido, atravessa fronteiras estaduais em segundos e deixa rastros que só viram prova nas mãos de quem sabe coletá-los e preservá-los. Nem o Judiciário escapa: na segunda-feira (21), o Tribunal de Justiça de Mato Grosso teve os sistemas derrubados por um ataque hacker e suspendeu o expediente e os prazos processuais.

Uma turma do tamanho do Brasil

É para preparar quem está na linha de frente desse enfrentamento que a Universidade Federal da Bahia iniciou a Especialização em Direitos Digitais e Segurança Cibernética. O curso é gratuito para os alunos, financiado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), Ministério da Justiça e Segurança Pública, no âmbito da Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública (Renaesp), e vai formar 230 profissionais do SUSP (Sistema Único de Segurança Pública): policiais civis, militares, federais e rodoviários federais, peritos e bombeiros. A procura foi mais que o dobro da oferta, com cerca de 560 inscritos. E a turma tem a cara do país, pois as inscrições homologadas apresentam abrangência nacional, contemplando as 27 unidades federativas brasileiras, incluindo os 26 estados e o Distrito Federal. Apenas 8% dos alunos são da Bahia, o que transforma a sala de aula virtual num ponto de encontro entre instituições que, na prática, precisam trabalhar juntas para investigar crimes que não respeitam divisas. As aulas acontecerão ao longo de cerca de 14 meses, com 360 horas de formação.

Tecnologia, lei e gestão na mesma formação

O desenho do curso parte de uma constatação: enfrentar o crime digital exige, ao mesmo tempo, domínio técnico, segurança jurídica e capacidade de gestão. Por isso, a especialização reúne três áreas da UFBA. É realizada pelo Instituto de Computação, em articulação com o Centro Interdisciplinar de Estudos e Formação em Segurança Pública (CIGESP), com parceria da Faculdade de Direito e da Escola de Administração.

Segundo o coordenador do curso, Leobino Sampaio, a formação começa pelos fundamentos de cibersegurança e pelos cibercrimes, passa pela legislação e pelo direito digital e chega a tópicos avançados como: computação forense e perícia criminal, gestão de identidade digital, com uso de blockchain, ciência de dados, sistemas inteligentes e inteligência artificial. O método é a aprendizagem baseada em problemas, com estudos de caso e oficinas a partir do cotidiano dos próprios alunos. No lugar de uma monografia, cada participante termina o curso com um projeto de intervenção voltado a um problema real da sua instituição.

A preocupação com direitos atravessa toda a grade. A prova digital só se sustenta na Justiça se for coletada e preservada dentro da lei, e a mesma tecnologia que ajuda a investigar pode, mal utilizada, expor dados de inocentes. Para o secretário da Segurança Pública da Bahia, Marcelo Werner, em mensagem enviada à Aula Magna, falar em segurança cibernética é, necessariamente, falar em direitos digitais.

A universidade pública no centro do debate

Para a UFBA, oferecer esse tipo de formação é também uma forma de reafirmar o papel da universidade pública diante de temas urgentes. “O segredo da instituição é se assenhorar das tecnologias e não ser dominada por elas”, afirma o reitor João Carlos Salles.

O curso integra uma política nacional de qualificação. Segundo a diretora de Ensino e Pesquisa da Senasp, Michele Gonçalves dos Ramos, o Ministério pactuou em 2026 mais de duas mil vagas em especializações com universidades de todo o país. “Garantir os direitos digitais e enfrentar o crime cibernético não é mais uma missão futurista. É uma urgência do nosso tempo”, diz.

Estamos preparados? A pergunta da Aula Magna

Essas questões marcaram a abertura do curso, realizada na sexta-feira (25), no auditório da Escola de Administração da UFBA, com transmissão ao vivo para os alunos de todo o país. Ao lado do reitor, participaram da mesa a diretora da Senasp, o diretor do Instituto de Computação, Ivan Machado, a coordenadora do CIGESP, Ivone Freire Costa, e o coordenador do curso, Leobino Sampaio. O secretário Marcelo Werner participou com uma mensagem em vídeo gravada especialmente para o evento. Em seguida, um delegado, um promotor e um especialista em proteção de dados discutiram a pergunta que dava nome ao encontro: quando o crime, a prova e a segurança se tornam digitais, estamos preparados para responder? Estamos preparados?

A pergunta da Aula Magna

Essas questões marcaram a abertura do curso, realizada na sexta-feira (25), no auditório da Escola de Administração da UFBA, com transmissão ao vivo para os alunos de todo o país. Ao lado do reitor, participaram da mesa a diretora da Senasp, o diretor do Instituto de Computação, Ivan Machado, a coordenadora do CIGESP, Ivone Freire Costa, e o coordenador do curso, Leobino Sampaio. O secretário Marcelo Werner participou com uma mensagem em vídeo gravada especialmente para o evento. Em seguida, um delegado, um promotor e um especialista em proteção de dados discutiram a pergunta que dava nome ao encontro: quando o crime, a prova e a segurança se tornam digitais, estamos preparados para responder?

O crime que muda de vítima a cada ligação

O diretor de Inteligência da Polícia Civil da Bahia, delegado Delmar Araújo Bittencourt, contou que chegou à tecnologia por necessidade. No início da carreira, investigando homicídios em Senhor do Bonfim, dependia quase só de testemunhas, que moravam ao lado dos acusados e tinham medo de falar. Hoje, disse, o desafio é outro. “No assalto de rua, há um local e uma vítima. No golpe digital, um aposentado sentado no sofá pode perder as economias de uma vida em segundos, com um clique errado, enquanto o golpista, protegido pelo anonimato, passa o dia ligando para uma vítima atrás da outra até que alguém caia”.

A geografia complica a investigação: a vítima pode estar em Salvador, o autor em São Paulo e o dinheiro em Rondônia. “Um crime digital não tem fronteira”, resumiu. Soma-se a isso a subnotificação. Delmar lembrou o caso de um juiz aposentado que chorava na delegacia por não acreditar que tinha caído num golpe. A vergonha faz muita gente desistir de registrar a ocorrência, e sem registro a polícia não consegue identificar os padrões dos golpes, que se renovam a cada semana. Por isso, contou, a Polícia Civil já foi ao Judiciário explicar, passo a passo, como uma prova digital é coletada e preservada, para que investigações de meses não sejam perdidas por falhas na cadeia de custódia.

Quando o celular vira a principal prova

O promotor de Justiça João Paulo Santos Schoucair, do Ministério Público da Bahia e ex-conselheiro do Conselho Nacional de Justiça, levou o debate para o terreno da prova. Hoje, disse, quase tudo passa pelo telefone, e a prova é digital. Só que ela custa caro: enquanto um aplicativo espião é vendido por cerca de R$ 100, a licença do software que o Estado usa para extrair os dados de um celular com garantia de integridade chega a R$ 1,5 milhão.

Schoucair relatou ainda uma mudança que acompanhou de perto. Durante anos, a polícia e o Ministério Público baianos concentraram energia no combate aos assaltos a banco, até perceberem que a maior parte do prejuízo das instituições financeiras já vinha do crime cibernético. Hoje, afirmou, os assaltos a banco foram zerados na Bahia, e os criminosos migraram para as centrais de golpes. Para acompanhar esse volume, o Ministério Público baiano desenvolveu uma ferramenta própria de inteligência artificial que analisa os processos durante a noite e sugere, pela manhã, se cada caso deve ser arquivado, denunciado ou receber novas diligências. Ainda assim, lembrou, a tecnologia não resolve sozinha. “O problema não está na programação, está entre a mesa e a cadeira. Somos nós”, disse.

Tecnologia, sim, mas com regras

Yuri Alexandro, profissional da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) que atua com privacidade e proteção de dados, trouxe o contraponto. Ele lembrou que a Constituição garante tanto a segurança quanto a proteção de dados pessoais, incluída entre os direitos fundamentais em 2022, e que o desafio é conciliar as duas coisas. Câmeras corporais, por exemplo, são defensáveis para coibir abusos em abordagens e produzir provas, mas o uso das imagens para outros fins precisa de limites claros. No caso do reconhecimento facial, estudos sobre sistemas como o Smart Sampa, em São Paulo, mostram que a precisão ainda falha, e um erro pode levar um inocente à prisão.

Para Yuri, a segurança das próprias ferramentas tecnológicas também precisa entrar na conta. Sistemas que tratam grandes volumes de dados pessoais exigem gestão de riscos, testes de precisão, transparência e diálogo com a sociedade civil, porque falhas de controle podem acabar alimentando a própria cadeia de fraudes que se quer combater. Ele também tratou da parceria com empresas: o compartilhamento de imagens e dados com o setor privado é bem-vindo, mas a coleta de dados pessoais não pode ser terceirizada.

Onde os três concordaram

A convergência apareceu no fim do debate. A Bahia, pioneira no uso do reconhecimento facial na segurança pública, já localizou mais de 5,3 mil foragidos da Justiça com a ferramenta desde a implantação, segundo a SSP. Delmar e Schoucair defenderam a tecnologia como aliada da investigação, mas concordaram com Yuri num ponto central: toda ferramenta precisa ser auditável e ter controle de governança. “O Estado pode fazer muita coisa, mas ele não pode tudo”, resumiu o delegado. O painel foi mediado pelos professores Leobino Sampaio e Horacio Filho.

Sobre o curso

Especialização em Direitos Digitais e Segurança Cibernética | Realização: Instituto de Computação da UFBA, em articulação com o CIGESP, com parceria da Faculdade de Direito e da Escola de Administração | Financiamento: Senasp/MJSP, no âmbito da Renaesp | Público: 230 profissionais do Sistema Único de Segurança Pública | Formato: a distância, 360 horas, cerca de 14 meses