BAHIA


Diferença salarial entre brancos e negros na Bahia chega a R$3 mil em 2026, diz relatório

Levantamento do Ministério do Trabalho expõe desigualdade de raça e gênero no mercado baiano

Foto: José Cruz/Agência Brasil

 

Pessoas negras recebem em média R$3 mil a menos que as brancas no estado, aponta o Relatório de Transparência Salarial do primeiro semestre de 2026, produzido pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Enquanto a remuneração média dos trabalhadores brancos é R$9.109,45, negros recebem, em média, R$5.934,43.

Segundo João Gabriel Lopes, professor de Direito do Trabalho na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e advogado trabalhista, a desigualdade salarial é resultado de séculos de perpetuação de um modelo de racismo institucional que se estende desde políticas estatais de sujeição e superexploração da população negra até mecanismos de violência nas empresas.

“A ausência de políticas sérias de reparação da população negra acarreta uma segmentação do mercado de trabalho que se reproduz até hoje: trabalhadores negros são empurrados, de forma sistemática, para a informalidade ou para os postos mais precarizados, especialmente aqueles que historicamente foram associadas ao trabalho compulsório e ao corpo negro. Esse racismo se revela, ainda, em barreiras no acesso à educação de qualidade, à formação profissional e às redes de indicação, mecanismos de acesso a boas vagas”, afirma.

O resultado, segundo ele, é que, mesmo na Bahia, onde a população negra é majoritária e equivale também à maior parte dos vínculos empregatícios (84,2%), ela é sub-representada no mercado de trabalho e ainda mais nos cargos de liderança, nas carreiras técnicas mais bem remuneradas e nos empregos formais com proteção social plena.

A desigualdade persiste até mesmo quando as funções exercidas são as mesmas. De acordo com o levantamento Síntese de Indicadores Sociais, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), trabalhadores negros no Brasil ganham menos em todos os grupos ocupacionais quando comparados a trabalhadores brancos. Em cargos de gerência ou diretoria, por exemplo, a diferença é de R$3.385.

As punições para práticas discriminatórias nas relações de trabalho, inclusive por motivos raciais, estão previstas na legislação. Determinações como o Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e as leis 9.029/1995 e 14.532/2023 dão conta disso, além das disparidades salariais serem vedadas pela Constituição Federal.

“O problema é que essas normas existem há décadas e a desigualdade persiste, o que demonstra que lei sozinha, por mais que represente um avanço, não basta. É preciso que trabalhadores conheçam seus direitos, que sindicatos atuem com pauta antirracista efetiva, e que as instituições trabalhistas estejam preparadas para reconhecer situações que configurem o racismo em suas múltiplas dimensões: individual, institucional e estrutural”, diz Lopes.

Em comparação com o salário médio dos homens não negros, grupo mais bem remunerado, os ganhos das mulheres baianas negras são R$ 2.473,89 menores. A remuneração média dessas mulheres é R$2.645,93. Elas compõem o grupo mais desvalorizado no mercado de trabalho baiano, apesar de ser o segundo mais expressivo em quantidade de vínculos empregatícios, atrás apenas dos homens negros: são 286.920 trabalhadoras negras, o equivalente a 34,4% do total.

Naira Gomes, antropóloga, pesquisadora e cofundadora da Marcha do Empoderamento Crespo, afirma que, além das mulheres negras serem contratadas para cargos menos valorizados, tendem a ser menos remuneradas quando estão em cargos na mesma linha de CEO, diretoria e coordenação.

“Não é à toa que precisou-se de uma lei em 2023 para equiparar isso, inclusive no serviço público. Não é da ordem da personalidade, um gestor privado que escolhe porque a empresa tem um regimento interno e ele mesmo pode escolher e pensar como funciona a sua empresa. Quando isso chega a cargos públicos, significa que é estrutural, que o racismo e machismo estão estruturando como as mulheres são lidas, valoradas e remuneradas”, define.