ARTIGO


Quando os números decidem contar uma história

Texto de Sócrates Santana e Mateus Couto

Foto: Assessoria

 

O que cresce depressa costuma assustar os mais cautelosos, mas há crescimentos que não são precipitação, são maturação acumulada. A Bahia que chega ao meio da década não acordou inovadora por súbita iluminação; ela acordou consciente de um caminho que vinha sendo percorrido há anos, passo a passo, com política pública, instituições e gente disposta a errar, aprender e insistir. É por isso que, quando os números finalmente se alinham, eles não gritam: eles explicam.

Entre março e dezembro de 2025, a Bahia saiu de 585 startups mapeadas para 1.102, segundo o Observatório Sebrae de Startups. Em nove meses, um crescimento de aproximadamente 90%. Há quem veja apenas a porcentagem; prefiro ver o intervalo de tempo, curto o bastante para revelar aceleração, longo o suficiente para evidenciar método. Porque o acaso não se repete com tamanha disciplina.

Essa expansão não veio sozinha nem isolada. Ela se manifesta junto à liderança da Bahia no Nordeste, posição confirmada por diferentes levantamentos do ecossistema, e se ancora num conjunto de decisões que transformou fomento em trilha e trilha em empresa. A engrenagem funcionou porque havia combustível: editais, programas, compras públicas, ambientes de inovação e a compreensão — rara, mas decisiva — de que inovação é política de Estado quando atravessa governos e calendários.

Nesse desenho, a Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia e a Financiadora de Estudos e Projetos ocuparam papel central. Seus editais não financiaram ideias abstratas; financiaram trajetórias. E quando a trajetória encontra mercado, o discurso vira balanço. O amadurecimento do ecossistema se mede justamente aí: na capacidade de transformar apoio inicial em escala, de atravessar a fase frágil e sustentar crescimento com governança.

É assim que se explicam as histórias que hoje circulam como prova viva de um ambiente que aprendeu a crescer. A i4sea, por exemplo, anunciou em abril de 2025 uma rodada Seed de R$ 7,5 milhões, liderada pelo Fundo GovTech, gerido pela KPTL e Cedro Capital, com participação da Polaris Investimentos. O valor é relevante; mais relevante é o que ele simboliza: confiança informada num negócio que saiu do papel para operar com solidez.

Há também histórias que cruzam fronteiras. A Trackfy foi recentemente incorporada pela WakeCap, multinacional sediada na Arábia Saudita e referência mundial em inteligência aplicada à gestão de equipes em grandes obras. A WakeCap reúne projetos que somam mais de US$ 120 bilhões em valor global. Quando uma startup baiana entra nesse mapa, não é exceção folclórica; é sinal de competitividade.

Outras trajetórias falam de eficiência e escala. A JustTravel recebeu aportes da Bossa Invest, do programa Sai do Papel (com apoio da 040 Ventures) e de outros fundos. Em 2024, já havia superado R$ 200 milhões em GMV, usando tecnologia para reduzir custos de agências e otimizar processos — uma lição antiga com roupa nova: inovar também é tornar o óbvio mais eficiente.

No campo da gestão pública e trabalhista, a GRTS Digital captou R$ 3,4 milhões do Fundo GovTech (Cedro Capital e KPTL) para soluções de gestão trabalhista e sindical. É a inovação aplicada ao cotidiano institucional, onde o ganho de eficiência produz impacto sistêmico.

E há, por fim, histórias que se impõem pelo tamanho e pela ambição. A INFLEET, fundada em 2017 em Salvador, acaba de captar R$ 40 milhões numa rodada Série A liderada por Canary, Indicator Capital e Citrino Ventures, com participação da DOMO.VC, Endeavor (via Scale-Up) e BluStone. A INFLEET opera como plataforma integrada — um one stop shop — para gestão de frotas, reunindo videotelemetria, manutenção, multas, abastecimento e checklist digital. O novo aporte servirá para escalar o Copiloto Inteligente, tecnologia que cruza dados e interação em tempo real para alertar sobre sonolência, uso de celular e excesso de velocidade, reduzindo acidentes, custos e emissões de CO₂. Tecnologia que salva tempo, dinheiro e vidas não é moda; é política pública em estado líquido.

Esses casos não surgem do nada. Eles florescem quando o ambiente aprende a combinar fomento com exigência, capital com governança, ambição com método. Por isso, o crescimento de 585 para 1.102 startups em nove meses não é um pico isolado; é um platô mais alto. E a liderança no Nordeste não é troféu de vitrine; é responsabilidade ampliada.

Se nos perguntarem o que esses números dizem, responderemos com cautela: dizem que a Bahia aprendeu a transformar persistência em escala. E se nos perguntarem o que eles prometem, diremos apenas isto — com a serenidade de quem sabe que o futuro não se apressa —: prometem continuidade. Porque desenvolvimento, quando é coletivo, não corre; avança.

Sócrates Gomes Pereira Bittencourt Santana é jornalista e Diretor de Inovação e Competitividade da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia.

 Mateus Couto é empresário e presidente da Associação Baiana de Startups (ABAS).