ARTIGO


PatrulhaSystem

O julgamento moral sobre artistas, dinheiro e o falso purismo cultural

Foto: Domi Meirelles

Por: Rodrigo Moraes 

Após o anúncio de que irá se apresentar no Camarote Salvador, o mais caro e elitizado do Carnaval da Bahia, a banda BaianaSystem foi alvo de duras críticas. O G1 noticiou: “BaianaSystem é criticada após anúncio de show em camarote de luxo no carnaval de Salvador”. E o jornal A TARDE: “BaianaSystem é alvo de críticas após anúncio em camarote”.

O BaianaSystem sempre defendeu o espaço público, o carnaval pipoca, do folião que sai na rua, sem bloco ou camarote. Mas, agora, diversos críticos, esquerdistas e direitistas, apedrejam a banda.

Para esquerdistas, o Baiana teria se “prostituído”, aderido ao “sistema” e esquecido a luta contra a “privatização do espaço público”. Tudo pelo dinheiro, vil metal, tudo pelo lucro, pela “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como escreveu Caetano Veloso em “Sampa”. Na canção “Lucro”, o BaianaSystem grita contra a especulação imobiliária: “Tire as construções da minha praia”. E o Camarote Salvador é erguido sobre a praia da Ondina. Esquerdistas disseram que, ao aceitar tocar no Camarote Salvador, o BaianaSystem rasgou a letra de protesto que conclama a tirar as construções da praia. O Navio Pirata, o potente trio elétrico da banda, teria se transformado num cruzeiro MSC.

Para direitistas, o comportamento do BaianaSystem revelaria “a hipocrisia da esquerda”, e Russo Passapusso, que se arvorava como um herói Robin Hood, seria, na verdade, um mercenário, que adora dinheiro. Apenas não assume isso. Roberto Barreto, o guitarrista da banda, ao explicar para a imprensa o motivo pelo qual o BaianaSystem aceitou tocar no Camarote Salvador, afirmou: “A gente precisa ocupar lugares para que a mensagem chegue”. Para não poucos, a emenda teria saído pior que o soneto. Essa desculpa seria esfarrapada, apenas para não confessar o recôndito e veraz motivo: o desejo de ganhar dinheiro.

Penso que as redes sociais se transformaram numa arena para a liberdade de expressão, mas também para o extravasamento da agressividade e maledicência. Os haters pululam.

Não é à toa que o compositor tropicalista Tom Zé escreveu a música “Tribunal do Feicebuqui”, lançada em 2013. Tom Zé havia recebido um linchamento nas redes sociais pelo simples fato de ter sido o locutor de um anúncio publicitário da Coca-Cola veiculado em 2013, para divulgar a Copa do Mundo de 2014, que ocorreria no Brasil. Foi chamado de “traidor”, “vendido”, “americanizado” etc. O patrulhamento foi tamanho que Tom Zé doou – o cachê recebido da Coca-Cola – para a banda de música de Irará, sua cidade natal. “Tribunal do Feicebuqui” finaliza com estes versos repletos de ironia: “Bruxo, descobrimos seu truque / Defenda-se já no Tribunal do Feicebuqui/ A súplica: Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?”.

Penso que Tom Zé comeu pilha da turma do patrulhamento, a PatrulhaSystem. Eu não doaria cachê coisíssima alguma.

Na década de 1980, época pré-internet, Tom Jobim permitiu que sua obra “Águas de Março” ganhasse adaptação para um anúncio publicitário da Coca-Cola. Negociou por 200 mil dólares a utilização dessa adaptação com fins publicitários para os Estados Unidos, México, Colômbia e Venezuela. O maestro recebeu, ainda, 20 mil dólares para aparecer, no fim de ano de 1986, durante alguns dias, na propaganda televisiva da Coca-Cola.

Intelectuais brasileiros criticaram a atitude de Tom Jobim de licenciar sua obra ao referido anúncio publicitário. Antônio Houaiss, por exemplo, afirmou: “Eu acho que ele poderia ter evitado isso. Para minha sensibilidade brasileira não vejo nenhuma vantagem social na relação entre uma grande música brasileira e um produto que é uma porcaria.” E complementou: “Apesar do dinheiro, o Tom Jobim pode ter sido lesado culturalmente”. Inácio Loyola de Brandão, por sua vez, afirmara: “Minha posição é de perplexidade. O que rege tudo isto? Existe uma ética ou não?”

Helena Jobim, irmã e biógrafa do maestro, narra detalhes desse episódio, que entristeceu o compositor. Tom Jobim, em entrevista concedida a Ruy Castro e Ana Maria Bahiana, publicada em setembro de 1988, na Revista Playboy, respondeu à pergunta sobre por que o anúncio deu tanto o que falar: “Por causa desse ranço que nós temos no Brasil. Se eu tivesse feito um anúncio de cachaça, tenho certeza de que não teria acontecido nada disso. Só gostaria de dizer aos pseudocomunistas que Coca-Cola é vendida na China, e agora também na União Soviética, junto com a Pepsi-Cola. Coca-Cola não é esse pecado mortal que vivem dizendo”.

No século XVIII, Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1732-1799), autor de obras teatrais como O Barbeiro de Sevilha (1775) e As Bodas de Fígaro (1784), disse o seguinte: “A glória é atrativa, mas, para desfrutá-la durante um único ano, a natureza nos condena a jantar 365 vezes”. Quem criticou Tom Jobim, Tom Zé e o BaianaSystem, será que ainda acha que os trabalhadores intelectuais vivem de brisa e de fama?

Enfim, a PatrulhaSystem existe há tempos. Não é algo novo. Tirem os patrulhas da minha praia.

RODRIGO MORAES. Advogado. Procurador do Município do Salvador. Professor de Direito Civil, Direito Autoral e Propriedade Industrial da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutor em Direito Civil pela Universidade de São Paulo (USP).