ARTIGO


O mito do ‘check-up completo’: o que realmente previne doenças (e o que é desperdício)

Texto de Fábio Vilas-Boas

Foto: Divulgação

 

A morte recente do empresário, acionista e diretor do Grupo Rodobens, Giuliano Finimundi Verdi, aos 51 anos, na sexta-feira (2/1), em Trancoso, Bahia, vítima de um infarto fulminante durante as férias com a família, levantou uma questão que volta e meia surge em casos como esse: como isso pôde acontecer se ele havia feito um check-up pouco antes? De acordo com familiares, os exames estavam todos em dia. Mesmo assim, a tragédia aconteceu.

Esse episódio ajuda a desmistificar um dos maiores mitos da medicina atual, a ideia de que um “check-up completo”, com uma série de exames, pode prevenir problemas sérios. Na verdade, isso não é verdade. E, muitas vezes, essa abordagem só traz uma falsa sensação de segurança.

É importante entender a diferença entre prevenção, rastreamento e os chamados exames de moda.

Prevenção de verdade não começa com exames complexos. Ela se inicia com uma medicina clínica de qualidade, com uma escuta atenta, uma avaliação cuidadosa e um controle dos fatores de risco que realmente importam, como pressão alta, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, sedentarismo, obesidade e estresse crônico. São esses fatores, se deixados de lado ao longo dos anos, que podem levar a infartos, AVCs e outras doenças sérias.

Rastreamento, por sua vez, é algo diferente. Refere-se à realização de exames em pessoas sem sintomas, mas apenas quando há evidências científicas sólidas de que aquele teste de fato reduz mortalidade ou complicações. Exemplos clássicos incluem mamografias para faixas etárias específicas, rastreamento do câncer de intestino, e aferições regulares da pressão arterial e da glicemia. Esses exames têm idades certas, indicações específicas e intervalos bem definidos. Não são para todo mundo, todo ano.

Já os exames de moda, frequentemente encontrados em pacotes de check-up, sejam empresariais ou particulares, incluem uma série extensa de exames laboratoriais e de imagem realizados sem um critério clínico individual. Esses exames raramente previnem doenças graves e podem aumentar o risco de resultados falso-positivos, ansiedade, investigações desnecessárias e do chamado “overdiagnosis”, que é o diagnóstico de condições que nunca causariam problemas reais ao paciente.

É preciso ser claro: um check-up comum não impede um infarto. Muitas doenças cardiovasculares se desenvolvem de forma silenciosa ao longo dos anos. As placas de gordura nas artérias podem se romper repentinamente, mesmo em pessoas que fizeram exames recentes considerados normais. A maioria dos protocolos tradicionais de check-up cardíaco usa o teste ergométrico, com ou sem cintilografia, que só identifica obstruções quando elas atingem cerca de 70% a 80% do calibre da artéria. Abaixo desse nível, o exame tende a ser interpretado como “normal”, mesmo que o risco continue a existir.

O que realmente reduz a chance de um evento sério não é a quantidade de exames, mas a gestão consistente e contínua dos fatores de risco ao longo do tempo. Isso é ainda mais eficaz quando feito com a orientação de um profissional qualificado, ferramentas diagnósticas modernas e a supervisão de um bom médico.

Por isso, a recomendação sobre exames deve sempre levar em conta a idade, o sexo, o histórico familiar e o perfil de risco de cada pessoa. Adultos jovens, sem fatores de risco significativos, raramente precisam de exames cardíacos complexos ou de métodos de imagem elaborados. Já pessoas de meia-idade, especialmente aquelas com hipertensão, diabetes ou histórico familiar de doenças cardiovasculares precoces, precisam de um acompanhamento mais cuidadoso, com exames que ajudem a entender melhor o risco e a ajustar o tratamento de maneira mais rigorosa. E para os idosos, o foco na saúde não está em realizar uma quantidade excessiva de exames, mas sim em garantir funcionalidade, prevenir quedas, revisar cuidadosamente os medicamentos e preservar a qualidade de vida.

A ideia de um “check-up completo” pode dar a impressão de tranquilidade, mas, na verdade, muitas vezes oferece apenas uma segurança ilusória. Saúde não é algo que se compra em pacotes. Ela se constrói ao longo do tempo, com um cuidado adequado, escolhas conscientes e atenção ao que realmente faz diferença.

No final das contas, a melhor prevenção está em tomar decisões corretas, na hora certa, guiadas por uma boa medicina, um acompanhamento contínuo e respeito à individualidade de cada um.

Dr. Fábio Vilas-Boas- Cardiologista, Doutor em Ciências pela USP e Titular da Academia de Medicina da Bahia