ECONOMIA


PF revela como Banco Master teria usado dados reais para fabricar documentos 

Investigação aponta produção em massa de procurações, reaproveitamento de assinaturas e alteração de datas para dar aparência de legitimidade a créditos 

Foto: Assessoria/Banco Master

A Polícia Federal descobriu uma verdadeira “linha de montagem digital” que teria sido usada para fabricar documentos relacionados a operações de crédito atribuídas à Tirreno Consultoria e negociadas com o Banco de Brasília (BRB). 

Segundo relatório técnico-pericial da PF, funcionários do Banco Master utilizaram dados reais de clientes, planilhas, Microsoft Word, programas de computador e edição de PDFs para produzir e modificar documentos. 

A investigação aponta que a estrutura permitia transformar informações de operações antigas em novos conjuntos documentais, apresentados como comprovação de créditos. 

2.700 procurações em lote 

Uma das etapas identificadas pela perícia envolveu a produção de 2.700 procurações de uma só vez, utilizando a ferramenta de mala direta do Microsoft Word. 

Dados de clientes, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe, eram organizados em planilhas e utilizados para preencher automaticamente os documentos. 

A PF também encontrou aplicações desenvolvidas pela área de tecnologia do banco para manipular arquivos PDF e separar páginas de assinaturas. 

Em um dos arquivos analisados havia 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento. 

“Precisamos excluir a data” 

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a alteração das datas. 

Em uma conversa interna, um funcionário escreveu: “e precisamos excluir a data”, ao tratar de um Termo de Consentimento. 

A perícia identificou um documento que originalmente apresentava a data de 24 de fevereiro de 2023, às 13h05. A informação foi posteriormente apagada visualmente do arquivo. 

Para os peritos, porém, a exclusão não eliminou completamente os vestígios digitais. Registros existentes nos arquivos permitiram reconstruir parte da cronologia. 

Assinatura digital revelou divergência 

A perícia também encontrou documentos cuja data indicada no próprio arquivo não correspondia ao momento em que foram assinados digitalmente. 

Em um dos casos, uma Cédula de Crédito Bancário apresentava a data de 21 de janeiro de 2025, mas o registro criptográfico indicava assinatura somente em 20 de junho de 2025. 

A diferença foi apontada pela investigação como um dos elementos que ajudaram a identificar a manipulação documental. 

Dossiês eram organizados em pastas de rede 

Depois de produzidos e modificados, os arquivos eram reunidos em conjuntos que formavam os dossiês das operações. 

Segundo a PF, os documentos finais eram armazenados em pastas de rede com nomes como “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”, “Demanda BRB-Tirreno 299 amostras” e “Demanda BRB-Tirreno 119 amostras”. 

Assim, diferentes documentos produzidos ou alterados separadamente eram reunidos em um único arquivo para cada operação. 

Comprovantes de transferência também foram alterados 

A tentativa de retirar informações que pudessem revelar a origem das operações chegou também aos comprovantes bancários de transferências via SPB e PIX. 

Em 25 de junho de 2025, segundo a investigação, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração dos documentos. 

A intenção era retirar dos comprovantes o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações exibidas estava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”. 

As mensagens também revelam a dificuldade de realizar a alteração em grande escala. Romy afirmou que conseguia modificar alguns documentos individualmente, mas que seria impossível fazer o mesmo manualmente nos 2.700 comprovantes. 

Em determinado momento, Allan escreveu: “tem q dar um jeito”. 

Para a PF, o episódio mostra uma das dificuldades da suposta linha de montagem: enquanto documentos como procurações podiam ser produzidos em massa por ferramentas automatizadas, a edição gráfica dos comprovantes bancários era mais complexa quando precisava ser repetida milhares de vezes. 

R$ 7,15 bilhões em cessões investigadas 

Segundo a PF, a estrutura fazia parte de um esquema envolvendo Tirreno Consultoria, Banco Master e BRB. 

A investigação aponta que a Tirreno teria sido utilizada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de créditos consignados, posteriormente utilizadas pelo Banco Master em operações com o BRB. 

Mensagens, arquivos, códigos, documentos e registros de assinaturas digitais foram analisados pelos peritos para reconstruir o funcionamento da suposta fraude.