ECONOMIA


Juros altos, crédito caro e marketplaces pressionam varejo brasileiro

Crédito caro aperta consumidores e empresas, enquanto marketplaces e concorrência pressionam preços, margens e investimentos

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

 

De móveis e eletrodomésticos a alimentos e roupas, grandes empresas do varejo brasileiro têm enfrentado crises financeiras nos últimos anos. Os casos são diferentes, mas ajudam a mostrar uma pressão que atravessa o setor: o dinheiro ficou mais caro justamente quando a forma de vender e competir também mudou.

Juros elevados e crédito caro reduzem o espaço das famílias para parcelar compras e, ao mesmo tempo, encarecem as dívidas e o funcionamento das empresas. Nesse cenário, ficam mais vulneráveis as empresas que geram pouco caixa com a própria operação, acumulam estoques, mantêm estruturas físicas caras ou têm dívidas difíceis de pagar.

Quando a taxa básica de juros está alta, o custo do dinheiro também tende a subir. A Selic, que serve de referência para as demais taxas da economia, está em 14% ao ano. Isso contribui para encarecer o crédito para consumidores e empresas.

Na prática, os juros tornam as compras parceladas mais caras e podem levar o consumidor a adiar a aquisição de produtos de maior valor. Quanto maior o preço e mais longo o prazo de pagamento, maior tende a ser o custo final. Por isso, categorias como móveis e eletrodomésticos são especialmente sensíveis ao crédito.

O Relatório de Economia Bancária (REB), do Banco Central, mostra que as taxas de crédito no Brasil dificultam o parcelamento de compras por períodos mais longos.

O impacto é maior entre as famílias de menor renda, que enfrentam juros mais altos e, por isso, têm menos espaço para financiar bens de maior valor. Quando o consumidor adia uma compra, o efeito também chega ao varejista.

O problema não é apenas a queda nas vendas. A situação se agrava quando as vendas deixam de gerar caixa suficiente para bancar as despesas do dia a dia. Segundo Bruno Medeiros Durão, especialista em Direito Bancário e Tributário, a diferença está justamente neste ponto. “Muitas empresas olham apenas para o faturamento e esquecem que existe uma diferença enorme entre vender muito e gerar caixa.”

Os efeitos, no entanto, não são iguais em todo o varejo. Os segmentos que dependem mais de crédito tendem a sentir primeiro a perda de ritmo da economia, enquanto aqueles menos dependentes de financiamento podem ser afetados de outras formas.

Uma varejista que depende de vendas parceladas, mantém estoques elevados e tem uma grande rede de lojas, por exemplo, pode enfrentar uma combinação particularmente difícil: consumidores comprando menos, dívidas mais caras e despesas que continuam mesmo quando as vendas caem.

Nesse cenário, a dívida deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a afetar o funcionamento da própria empresa.

Ao mesmo tempo em que enfrenta o crédito caro, o varejo passa por outra transformação: o consumidor ganhou mais opções para comparar preços e fazer compras. Marketplaces e plataformas digitais aumentaram a concorrência entre vendedores e ampliaram o acesso dos consumidores a produtos nacionais e estrangeiros.

Para competir nesse ambiente, porém, não basta colocar produtos em uma loja virtual. É preciso investir em tecnologia, sistemas de gestão de estoques e estruturas logísticas capazes de fazer os produtos chegarem rapidamente ao consumidor.

Em relatório, analistas do BTG Pactual destacam a importância de integrar lojas físicas e canais digitais e fortalecer a presença das empresas no ambiente online. Nas Casas Bahia, o canal online, em parceria com o Mercado Livre, foi apontado como uma das principais “alavancas” para o crescimento do negócio.

Já o pesquisador Paulo Nassar, em “Cotidiano e memória coletiva no varejo”, que a presença física pode funcionar como um elemento de confiança e resiliência em determinados momentos. A questão, portanto, não é simplesmente ter ou não ter lojas. É manter uma estrutura, física e digital, compatível com o volume de vendas e com a capacidade de gerar caixa para sustentar a operação.