ECONOMIA


Ex-presidente do BC vê cenário econômico ‘desastroso’ e alerta para risco de recessão em 2027

Arminio Fraga criticou a política fiscal do governo e afirmou que famílias e empresas devem evitar o endividamento

Foto: Divulgação/Wikipedia

 

O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga afirmou que a economia brasileira enfrenta um cenário “desastroso” e alertou para o risco de uma recessão em 2027 caso não sejam adotadas medidas para equilibrar as contas públicas. As declarações foram dadas em entrevista à revista Veja, publicada nesta sexta-feira (24).

“É saudável haver um pêndulo político que oscila um pouco para o conservadorismo e, depois, para a esquerda, mas ele precisa ser curto. O Brasil é um país muito desigual, por isso é difícil construir soluções, e é natural que haja essa oscilação, mas o pêndulo não precisa ser uma bola de demolição. Há alguns grandes blocos de soluções para o país se desenvolver. O primeiro é promover uma reforma importante da previdência, hoje deficitária a perder de vista. Outro aspecto tem a ver com a qualidade do Estado. Nenhum país se desenvolve sem um Estado que funcione bem, que entregue serviços de qualidade à população”, disse.

“Daí resultam ganhos de produtividade e sociais. Um terceiro bloco são os gastos tributários. Quando se somam todos os subsídios e benefícios fiscais, incluindo os estaduais, em parte injustificáveis, chega-se a 9% do PIB. Não é possível que as pessoas não consigam cortar pelo menos uns 3 pontos percentuais disso. O Brasil precisa passar por uma boa peneirada, porque o quadro geral é desastroso. Uma verdadeira vergonha. Por outro lado, há muito espaço para melhorar em todas as áreas, o que viabilizaria um crescimento acelerado e inclusivo”, acrescentou na entrevista.

Na avaliação do economista, o Brasil convive com fragilidades fiscais, juros elevados e um mercado de crédito pressionado pelo alto nível de endividamento de famílias, empresas e do próprio governo. “A situação fiscal é bastante grave. Embora o governo tenha criado o arcabouço fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara e os resultados aí, na forma de juros altos”, afirmou fraga.

Durante a entrevista, Arminio criticou a condução da política fiscal do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo ele, embora indicadores como emprego e crescimento tenham apresentado resultados positivos, o país ainda não criou as condições necessárias para um crescimento sustentável, citando a baixa taxa de investimentos e a falta de ganhos de produtividade.

“As estatísticas de emprego e de crescimento foram boas até agora, mas os ingredientes para que o Brasil possa crescer a um ritmo mais acelerado e sustentável ainda não foram acionados. A taxa de investimento continua muito baixa. Sem isso e sem ganhos de produtividade, o país não vai andar. Nesse meio-tempo, as fragilidades da economia estão crescendo”, destacou.

O economista também afirmou que considera provável uma recessão em 2027 caso o atual cenário não seja revertido. Por isso, recomendou cautela a empresas e consumidores. “Tenho recomendado às empresas e às pessoas que tomem muito cuidado com as dívidas. Preservem o caixa e não peguem empréstimos”, disse.

Ao comentar o cenário político, Fraga defendeu um amplo ajuste fiscal com participação do Executivo e do Legislativo e avaliou que o país precisa avançar em reformas estruturais para recuperar a confiança da economia e ampliar o potencial de crescimento.

“Em termos econômicos, os penduricalhos do Judiciário têm algum peso e, sobretudo, são um absurdo ético. Mas a maior responsabilidade cabe ao Executivo e ao Legislativo. Cortar os gastos exige um grau de negociação que tem se mostrado difícil, mas é um fato que, sem o Legislativo, isso não andará. O maestro dessa orquestra é o Executivo, mas não se pode atribuir a ele toda a responsabilidade”, disse.