BRASIL


Pesquisa aponta que 56% dos jovens deixam o primeiro emprego por dificuldades de adaptação, crescimento e permanência

Estudo alerta para o ‘custo invisível’ do turnover para as empresas e aponta falhas na gestão que podem transformar o primeiro emprego em ‘armadilha’

Foto: Assessoria/Hayza Ramos

 

Uma pesquisa realizada pelo Instituto PROA, organização que atua para ampliar o acesso da juventude periférica ao mercado de trabalho formal no Brasil, consta que grande parte dos jovens desiste do primeiro emprego em até um ano de atividade. O estudo ouviu 403 jovens e 187 empresas de todas as regiões do país.

Os dados apontam que, para 56% dos jovens entrevistados, a última saída do trabalho não ocorreu de forma plenamente autônoma. Ou seja, mais da metade enfrentou desligamentos coercitivos ou foi levada a sair em razão de condições inviáveis de ambiente e liderança.

O levantamento “Trampolim ou Armadilha? Turnover jovem: Mobilidade, autonomia e início da carreira” avaliou também o posicionamento das empresas. Nos resultados, quase 100% das empresas (94,7%) acreditam ser possível frear a rotatividade, 82,4% reconhecem que os motivos das saídas estão ligados a fatores controláveis e 75,9% tem clareza de que prevenir é financeiramente mais vantajoso do que substituir.

No entanto, o ciclo de demissões ainda se repete. Uma das conclusões do estudo é que o verdadeiro “gargalo” não está na falta de diagnóstico por parte dos Recursos Humanos ou da alta direção, mas na dificuldade de transformar esse conhecimento em prática.

“O que os dados nos mostram é que a saída do jovem raramente é uma decisão leviana. Muitas vezes, o turnover mascara vínculos ‘ambíguos’, em que o jovem continua no emprego por pura falta de alternativas, ou trajetórias ‘negativas’, marcadas por um desgaste acumulado”, explica Regiane Tofanello, diretora de empregabilidade do Instituto PROA.

Para a juventude periférica, o discurso do ‘propósito’ ainda é um privilégio, já que esses jovens buscam estabilidade financeira e ascensão. Inclusive, há uma disposição real de aceitar um salário menor hoje, desde que exista uma perspectiva estruturada de aprendizado e crescimento no futuro”, completa.

A pesquisa dá continuidade ao estudo anterior, “Horizonte Comum: Expectativas Cruzadas: Juventude e Empregadores na Agenda da Inclusão Produtiva”, que investigou as expectativas dos jovens em relação à carreira no mercado formal.

A nova edição, divulgada em 2026, ouviu 403 jovens e 187 empresas de todas as regiões do país, além de realizar 15 entrevistas em profundidade. O principal objetivo foi compreender por que os jovens deixam as empresas e o que essas saídas revelam sobre a qualidade dos vínculos de trabalho.

Um dos dados mais contundentes do estudo é o desalinhamento entre a percepção das empresas e o que os jovens realmente sentem. Em uma escala de 0 a 5, ao avaliar os motivos de saída, os jovens atribuem nota 4,0 à falta de aprendizado e perspectiva. Já as organizações dão apenas 2,74 para esse mesmo fator, a maior distância registrada no levantamento, com diferença de 1,26 pontos.

As experiências precárias também geram um impacto emocional duplo. Ao deixar um emprego, 66% dos jovens afirmam se sentir “mais preparados”. Ao mesmo tempo, porém, 30% saem “desiludidos” e 25%, “mais inseguros”.

A rápida velocidade com a cerca de 87% das organizações conseguem substituir um jovem talento (2 meses) mascara os custos desse fenômeno. Fatores importantes como o tempo de adequação do novo funcionário, a curva de erros nos primeiros meses, a sobrecarga da equipe remanescente e o desgaste da cultura corporativa não atuam silenciosamente na produtividade do negócio.

Para compreender o fenômeno do turnover, o PROA aponta que a autonomia não significa apenas o “querer sair”, mas, sobretudo, o “poder sair”.

Esse cenário fica claro ao observar o perfil da amostra da pesquisa: a maioria dos jovens (79%) mora com a família e depende integralmente do próprio rendimento para sobreviver ou contribuir com a renda da casa. Dos 403 jovens ouvidos, com média de idade de 21,4 anos, 62% são mulheres e 61% se declaram pretos ou pardos.

Além disso, os dados de trajetória confirmam a instabilidade desse período: 60% das experiências profissionais duram apenas até um ano, e 20% dos jovens já acumulam quatro ou mais passagens pelo mercado em pouco tempo. Nesse contexto, a mobilidade e a distância de deslocamento, que pode chegar a quatro horas diárias, também atuam como filtros determinantes na manutenção do mercado de trabalho.