SALVADOR


Família de Dodô defende legado do artista no Carnaval, na guitarra baiana e no trio elétrico

Manifestação aponta pontos de texto publicado e apresenta versão sobre legado do inventor do trio elétrico

Foto: Reprodução/Facebook

 

A família de Adolfo Antônio Nascimento, conhecido como Dodô, procurou o MundoBA para fazer algumas considerações sobre o artigo “Lei Dodô e Osmar: justiça aos inventores do trio elétrico”, publicado no dia 20 de fevereiro de 2026 pelo advogado e especialista em Direito Autoral, Rodrigo Moraes. Segue a íntegra da nota:

O sonho de Moraes Moreira era maior do que um slogan

  Moraes Moreira, com a generosidade que sempre o acompanhou, falou em algo que vai muito além de uma frase bonita: uma Escola Dodô e Osmar, uma instituição com missão pública de ensinar, preservar, documentar e formar novas gerações a partir do que foi criado, construído, testado e vivido ao longo de décadas.

  Isso não é detalhe. Porque uma escola que ainda não existe (e que Moraes imaginou como um projeto de interesse público, com método, formação e preservação) não pode ser substituída, por conveniência, por uma instituição privada e pré-existente, por mais respeitável que ela seja. Confundir as duas coisas é trocar a essência do pedido por um atalho. E atalho, em tema de memória, quase sempre vira distorção.

  Quando se fala em “Lei Dodô e Osmar”, portanto, a primeira pergunta precisa ser: lei para quê? Para financiar uma estrutura específica? Para reconhecer um símbolo? Defendemos uma lei para criar um sistema público de salvaguarda do Carnaval, do trio e de seus inventores — com deveres, governança e compromisso com a população. A diferença entre essas respostas muda tudo.

Preservação começa pelo básico: a precisão

  Se existe uma urgência real neste debate, ela atende por um nome: preservar a história com rigor. Isso inclui coisas que alguns chamam de “pormenores”, mas que na prática são o alicerce da credibilidade.

  Quando um texto viraliza dizendo defender “justiça”, mas tropeça em dados básicos, como o ano de nascimento de Dodô, ele não está apenas cometendo um erro; está demonstrando que a história está sendo usada como enfeite, não como fundamento. Dodô era cerca de dez anos mais velho que Osmar. Quando se conheceram, Dodô era um adulto, Osmar um adolescente. A trajetória dos anos iniciais da dupla, até a criação do Trio Elétrico, em 1951, foi uma relação de Mestre e Aprendiz.

  Mestre esse que criou todos os elementos tecnológicos utilizados naquela Fobica (o Ford T – 1929) e, posteriormente, em todos os outros caminhões utilizados. Dentre esses elementos, estavam os instrumentos, criados em 1942 (Dodô com menos de 30 anos, e Osmar com menos de 20). Chamados de Pau Elétricos, era um violão sólido e um bandolim sólido. Em 1952, Dodô constrói um Violão Tenor sólido, o Triolim (terceiro instrumento elétrico do Trio). O violão passou a ser chamado de Guitarra no país inteiro. E depois, no meio da década de 1970, Armandinho pega o nome de uma música de Moraes Moreira, que era uma homenagem ao jeito baiano de tocar guitarra de Pepeu Gomes e do próprio Armandinho, e rebatiza o instrumento, com o nome de Guitarra Baiana (que foi música tema de novela, vale lembrar).

  Então, quando um texto afirma que a guitarra baiana teria sido “inventada” por Armandinho, ele apaga e subtrai de Dodô toda sua inteligência e processo que o levou a fazer isso. Processo esse que começa quando Osmar – o pai de Armandinho ainda era uma criança. Nós temos o relato de Dorival Caymmi sobre isso de maneira cristalina. Essa fala consta na biografia Dorival Caymmi: O Mar e o Tempo (Editora 34), escrita por sua neta, Stella Caymmi.

  Não estamos deixando de reconhecer a importância da técnica, virtuosismo e constante desejo de evoluir o instrumento que Armandinho teve. Mas isso é bem diferente de inventar.

  Esses pontos não são preciosismo. É preservação de legado e de história. E uma lei que carrega o nome de Dodô não pode começar apagando Dodô e subtraindo dele sua trajetória, genialidade, protagonismo e invenções.

“Dodô e Osmar” juntos — e a necessidade de não silenciar ninguém

  Há um imaginário coletivo baiano, algo consolidado de que Dodô e Osmar são inseparáveis, e ninguém sensato discorda da parceria histórica. Mas existe uma armadilha perigosa nessa ideia: a parceria não pode virar fusão de identidades, e muito menos pode virar um mecanismo pelo qual apenas um lado fala, enquanto o outro lado é tratado como “apêndice do nome”.

  Quando se diz “não dá para separar”, muitas vezes o que está por trás é: não vamos ouvir todas as vozes. E a família de Dodô sabe bem como esse “não vamos” funciona. Ele costuma vir disfarçado de “unidade”, de “tradição”, de “evitar polêmica”. Mas o resultado prático é quase sempre o mesmo: uma parte some do enredo. Façam um experimento simples: procurem quantas vezes nós aparecemos para contar a história de Dodô nos documentários sobre o Trio Elétrico e a Guitarra Baiana. Quando o assunto é história de Dodô e de seus inventos, é preciso ouvir sua família e quem cuida de seu legado. E a prática de todos esses anos mostra o contrário.

  Reconhecer a dupla não exige calar a singularidade de cada um. Pelo contrário: a preservação séria exige que a história seja contada com múltiplas camadas — técnica, musical, social, econômica — e com a complexidade real das contribuições.

A ilusão da patente e a realidade da captura de valor

  Também é preciso colocar o debate no chão. A ideia de que “se tivessem patenteado, estariam ricos” é uma simplificação sedutora — e, do ponto de vista técnico, limitada. Isso explicado pelo próprio artigo. E isso também faz parte do preservar o legado. Porque é lutar pelo que realmente importa e funciona.

  Patentes têm prazo e expirariam; isso faz parte do sistema. O que costuma gerar longevidade econômica não é a patente isolada como troféu, mas a capacidade de transformar invenção em estrutura produtiva, em fabricação, em cadeia industrial, em continuidade empresarial.

  Ou seja: o que teria sustentado, no tempo, um retorno econômico robusto seria uma combinação de:

  • tecnologia (que existiu),
  • produção/escala (quase nunca existiu como empresa),
  • modelo de negócios (não se consolidou),
  • e proteção jurídica aplicável (variável).

  Dodô, como gênio que era, fez o que gênios fazem: inventou, construiu, tentou, provou. Mas a história mostra que “capturar valor” exige uma máquina econômica que raramente está disponível para inventores populares, especialmente quando o entorno cresce e profissionaliza o negócio muito depois.

  Vale lembrar que até a sua morte, em 1978, Dodô era quem construía tudo o que se usava pro Trio Elétrico: amplificadores, auto falantes, instrumentos e parte elétrica. Não só pra ele, mas pros outros trios. Não era em forma de empresa. Não tinha estrutura de franquia, mas era o ofício que ele podia fazer com a estrutura da época.

  Logo, reduzir esse assunto a “não patentearam, então perderam tudo” não ajuda. O que ajuda é pensar em reparação e preservação com instrumentos públicos bem desenhados — sem fantasia jurídica e sem atalhos.

Se houver receita pública, tem que haver dever público

  A família de Dodô não defende “taxar por taxar”. Mas se o poder público pretende criar um mecanismo de financiamento associado aos grandes negócios do Carnaval, isso precisa vir com contrapartidas claras, porque dinheiro público sem dever público vira captura.

  Uma política séria deveria prever, no mínimo, salvaguarda e acervo, educação e formação, governança plural e proteção simbólica e material.

  Isso, sim, se aproxima da visão generosa de Moraes Moreira: um projeto que ensina, preserva e forma. Não um carimbo que só “paga conta” de um lado.

Ainda sobre a “Lei Dodô e Osmar”

  É positivo que existam iniciativas legislativas reconhecendo a importância do trio, inclusive no plano federal. Mas também é verdade que textos legislativos podem carregar simplificações históricas e, se não houver rigor, podem institucionalizar versões distorcidas do passado. O próprio PL 4962/2023 — ao tentar enquadrar culturalmente o tema — precisa ser lido com cuidado, porque “reconhecimento” não pode virar “história oficial reduzida e equivocada”.

  Lei é instrumento sério. Ela não pode nascer de narrativa distorcida ou rasa, nem pode cristalizar erros que depois serão repetidos em sala de aula, em documentos oficiais e em projetos culturais.

  A prova disso é que vemos constantemente. O desconhecimento completo sobre os elementos da história, a começar pelo ano de 1950, devidamente corrigido no artigo, mas que segue sendo falado com erro e, quando não pode mais ser negado, é romantizado em forma de genialidade marketeira. No final, o resultado é esse Dodô, que aparece no nome e ninguém sabe sua imagem, sua cor, sua voz, suas ideias e sua história.

Um pedido simples: debate público com verdade e transparência

  A família de Dodô não quer “vencer” ninguém em rede social, nem conseguiria. Quer o que sempre foi negado aos desfavorecidos da história: ser ouvida sem ser desqualificada.

  E por isso faz um apelo: que se discuta, sim, políticas públicas para preservar e reconhecer esse legado — mas com três compromissos inegociáveis:

  • Compromisso com a verdade histórica (inclusive nas datas e nas atribuições).
  • Compromisso com o interesse público (com deveres, governança e acesso).
  • Compromisso com transparência: quando alguém defende destinação de recursos públicos para estruturas específicas, é saudável que o debate seja conduzido com clareza sobre vínculos, recortes e interesses. Não para descredibilizar pessoas — mas para impedir que a memória coletiva seja guiada por conveniências.

  Porque a história do trio elétrico não é propriedade privada de ninguém. Ela é patrimônio do povo, mas passa invariavelmente pela história de vida de Dodô. E Dodô não pode continuar sendo apenas um nome bonito no título sem uma trajetória.

  O que precisamos construir é maior: uma preservação que resista ao tempo, que ensine as novas gerações e que honre, com precisão, quem de fato abriu caminho.

  Diante do exposto, a família de Adolpho Antonio Nascimento (Dodô) reafirma seu compromisso com a verdade histórica, com a preservação rigorosa de seu legado e com o debate público responsável.