POLÍTICA


Laços de Vorcaro arrastam direita e esquerda para escândalo do Master; elo inclui políticos baianos

Investigação sobre o ex-banqueiro cita autoridades e políticos de diferentes espectros

Foto: Reprodução/Polícia Federal

 

O escândalo envolvendo o Banco Master expôs relações de Daniel Vorcaro com políticos de diferentes espectros ideológicos. A investigação ganhou novo impulso após a prisão do ex-banqueiro na última quarta-feira (4) e passou a citar, direta ou indiretamente, lideranças da direita e da esquerda, além de autoridades do Judiciário. Reportagem do jornal Folha de S. Paulo listou nomes de integrantes de Três Poderes que mantiveram algum elo com Vorcaro (veja relação abaixo).

Desde novembro do ano passado, quando o banco foi liquidado, nomes do Congresso, governadores, ex-ministros e prefeitos aparecem em menções relacionadas aos negócios do grupo financeiro. No Congresso Nacional do Brasil, a apresentação de um pedido de CPI chegou a ser discutida, mas o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sinalizou que não pretende instalar a comissão.

Também foram citados no contexto do caso ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Veja abaixo nomes de líderes políticos e autoridades mencionados por elo com o ex-banqueiro:

Antônio Rueda (União Brasil)
A quebra de sigilo do telefone do banqueiro Daniel Vorcaro revelou que ele ofereceu carona de helicóptero ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, durante o Grande Prêmio de Fórmula 1 de 2024, em Autódromo de Interlagos. O convite também teria sido feito ao senador Ciro Nogueira. Rueda não comentou o caso.

Ciro Nogueira (PP-PI)
Em mensagens analisadas na investigação, Vorcaro chamou o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas (PP), de “grande amigo de vida”. Em 2024, o parlamentar apresentou no Congresso Nacional do Brasil uma proposta apelidada de “emenda Master”, que ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em caso de liquidação de instituições financeiras. O senador afirma que “não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso”.

Cláudio Castro (PL-RJ)
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, foi citado no contexto da Operação Barco de Papel, da Polícia Federal do Brasil, que apura suspeitas envolvendo o fundo de previdência estadual Rioprevidência, que investiu recursos no banco. O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro também abriu apuração sobre investimentos da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) no Master. Em janeiro, Castro exonerou o então presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, e informou que o governo abriu procedimento interno para apurar os fatos.

Davi Alcolumbre (União Brasil-AP)
Mensagens atribuídas a Vorcaro mencionam uma reunião realizada em agosto de 2024 na residência oficial do Senado, sem citar nominalmente o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. As investigações também têm como alvo Jocildo Silva Lemos, ex-dirigente da Amapá Previdência (Amprev), indicado ao cargo pelo governador Clécio Luís, do União Brasil, após recomendação de Alcolumbre. A Polícia Federal do Brasil apura investimentos da autarquia em letras financeiras do Master que somam cerca de R$ 400 milhões. O senador não comentou o caso.

Guido Mantega (PT)
Ex-ministro da Fazenda entre 2006 e 2014, nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, Guido Mantega atuou como consultor do banco. Segundo Lula, Mantega intermediou um encontro entre o presidente e Vorcaro em 2024, no Palácio do Planalto.

Ibaneis Rocha (MDB-DF)
Em março de 2025, o Banco de Brasília (BRB), vinculado ao governo do Distrito Federal, anunciou a compra de 58% das ações do Master. A operação passou a ser investigada por órgãos de controle e motivou uma operação da Polícia Federal em novembro para apurar a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado consideradas fraudulentas. Vorcaro afirmou ter discutido a negociação com o governador Ibaneis Rocha, que confirmou encontro com o empresário, mas disse não ter tratado do tema.

Jair Bolsonaro (PL)
O ex-presidente Jair Bolsonaro teve como maior doador na eleição de 2022 o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que repassou R$ 3 milhões à campanha. Zettel foi preso na investigação sobre o banco. Segundo a Polícia Federal, ele integraria um grupo ligado ao empresário responsável por intimidar adversários e pessoas relacionadas às apurações. O presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, minimizou o repasse.

Jaques Wagner (PT-BA)
Líder do governo no Senado, Jaques Wagner confirmou ter indicado Ricardo Lewandowski como consultor do banco após o ex-ministro deixar o Supremo Tribunal Federal. Wagner também foi secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia quando ocorreu a privatização da estatal Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), de cujo ativo surgiu o cartão consignado Credcesta, criado pelo empresário Augusto Lima, ex-sócio do Master.

João Carlos Bacelar (PL-BA)
O deputado federal João Carlos Bacelar foi responsável por levar o caso ao Supremo Tribunal Federal em 2025. O parlamentar aparece em documento apreendido com Vorcaro relacionado a um empreendimento imobiliário em Trancoso. Bacelar afirmou que o documento tratava da criação de um fundo para viabilizar o projeto e que a negociação não avançou.

João Henrique Caldas – (PL-AL)
Há investigação sobre investimento de R$ 97 milhões feito pelo instituto de previdência de Maceió em letras financeiras do Master. A capital é administrada por João Henrique Caldas, conhecido como JHC. O instituto afirmou que a aplicação seguiu regras vigentes e que o banco estava habilitado junto ao Banco Central do Brasil e ao Ministério da Previdência.

Lula (PT)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou ter se reunido com Vorcaro em dezembro de 2024 fora da agenda oficial, antes de as acusações contra o banco se tornarem públicas. Segundo Lula, o encontro ocorreu a pedido de Mantega e contou com a presença do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do ministro da Casa Civil, Rui Costa.

Nikolas Ferreira (PL-MG)
O deputado federal Nikolas Ferreira utilizou um jato ligado a Vorcaro durante a campanha de Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2022. A aeronave percorreu capitais do Nordeste e cidades do interior de Minas Gerais. O parlamentar afirmou que desconhecia o proprietário do avião na época.

Ricardo Lewandowski (sem partido)
O ex-ministro da Justiça no governo Lula, Ricardo Lewandowski, prestou consultoria ao banco após deixar o STF em 2023. Segundo ele, ao assumir o ministério em 2024, suspendeu o registro na Ordem dos Advogados do Brasil e deixou de atuar em todos os casos. Seu escritório, administrado por familiares, manteve contrato com o banco até agosto de 2025.

Roberto Campos Neto (ex-BC)
O Banco Master foi criado e expandiu suas operações durante a gestão de Roberto Campos Neto na presidência do Banco Central do Brasil. O ex-dirigente afirma que o órgão fez alertas à instituição para adequação às regras. A Polícia Federal cumpriu mandados na residência do ex-diretor do BC Paulo Sérgio Neves de Souza, investigado por possível atuação como consultor informal de Vorcaro.

Rui Costa (PT-BA)
O ministro da Casa Civil, Rui Costa, aparece na investigação em razão do cartão consignado Credcesta, ligado ao banco, que recebeu contrato de exclusividade de 15 anos durante sua gestão como governador da Bahia. O benefício se expandiu para 24 estados e 176 municípios até 2024.

Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP)
O pastor Fabiano Zettel, ligado à família de Vorcaro, também foi o maior doador da campanha do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em 2022, com repasse de R$ 2 milhões.