SALVADOR


Fitinhas do Senhor do Bonfim preservam tradição de fé e identidade cultural na Bahia

Peças estão entre os símbolos mais conhecidos entre moradores e turistas

Foto: Bruno Concha/Secom/Prefeitura de Salvador

 

As fitinhas do Senhor do Bonfim estão entre os símbolos mais conhecidos de Salvador e da Bahia. Presentes em igrejas, feiras e no pulso de moradores e turistas, elas vão além de um souvenir e carregam uma história ligada à fé, ao sincretismo religioso e à cultura popular, atravessando gerações como parte da identidade baiana.

A origem das fitinhas remete a um período em que o utensílio tinha outra forma e função, ainda no século XIX. Segundo o historiador Murilo Mello, a confecção era artesanal e bem diferente da atual. “A fitinha do Bonfim não tinha essa confecção em moldes industriais que conhecemos hoje. Ela era feita de cetim ou linho, muito mais bem trabalhada, bordada e com tintas na cor de ouro, além de ser bem maior do que a que vemos atualmente”, explicou.

Naquele período, o item era chamado de “medida do Bonfim”, por seguir uma proporção ligada à imagem do santo. “Essa fita seguia a medida do braço da imagem, do peito até a ponta dos dedos”, afirmou o historiador, lembrando que o termo aparece em diversas manifestações culturais. Inclusive, há canções da música popular brasileira que fazem referência, a exemplo de “Trocando em Miúdos”, de Chico Buarque, lançada em 1977 no disco “Passaredo”.

A produção da “medida do Bonfim” tinha relação direta com a manutenção da Igreja. “Ela começou a ser confeccionada como uma fita maior e mais elaborada, com o objetivo de angariar fundos para ajudar a Irmandade do Senhor do Bonfim”, destacou Murilo. Apesar de custar mais caro na época, o objeto teve boa aceitação. “Foi um sucesso absoluto, mesmo sendo muito mais cara naquele período”, pontuou.

Com o tempo, a forma de uso também mudou. O item era pendurado em bolsas, usado no dia a dia, colocado no pescoço e amarrado com nós. Não se usava no punho. A versão menor e mais acessível surge apenas a partir da segunda metade do século XX, quando passa a ganhar ainda mais popularidade. A partir daí, esse costume se expande e o acessório passa a inspirar outras devoções.

Tradição

Hoje, as fitinhas continuam chamando muito a atenção de quem visita Salvador. Turista do Rio de Janeiro, Sebastião Gomes de Freitas, 69 anos, que está na capital baiana pela primeira vez, contou que já conhecia a fitinha antes da viagem, principalmente por imagens vistas em reportagens e nas redes sociais. Segundo ele, a tradição de amarrar a fita e fazer pedidos foi apresentada por amigos que já estiveram na cidade. Depois de conhecer a história, ele disse que a fitinha passou a representar fé, esperança e ligação com a cultura local.

“Quando a gente entende a origem, percebe que não é só um souvenir, é algo que carrega crença e respeito”, afirmou o empresário. Sebastião disse que pretende levar a fita como lembrança da viagem. “Vai ser uma forma de lembrar desse momento especial sempre que eu olhar para ela”, completou.

Turista do Rio Grande do Sul, Ana Carolina Antunes, de 24 anos, relatou que sabia pouco sobre a fitinha antes de chegar a Salvador, apenas que era um dos símbolos mais conhecidos da cidade. Ela contou que conheceu melhor a tradição ao visitar o Pelourinho e ouvir explicações de guias e moradores sobre o ritual de amarrar a fita e fazer pedidos.

Depois disso, a estudante afirmou que a fitinha passou a representar fé, cultura e identidade local. “É bonito ver como algo tão simples tem um significado tão profundo para as pessoas daqui”, disse. Para ela, levar a fitinha é guardar uma recordação da viagem. “É uma lembrança pequena, mas cheia de história”, concluiu.

Já a bailarina, coreógrafa e professora de dança Eliana Brêga, de 71 anos, visitou a Igreja do Senhor do Bonfim pela quarta vez, mas só agora conseguiu entrar no templo e amarrar sua primeira fitinha. Emocionada, ela contou que a experiência era aguardada havia anos.

“É a quarta vez que eu venho à Igreja do Bonfim, e é a primeira vez que eu consigo entrar. Todas as outras vezes estava fechada, era horário de almoço, era segunda-feira. Eu falei: agora eu preciso ir à Igreja do Bonfim”, determinou.

Segundo Eliana, a fé foi o principal motivo da visita: “Eu vim amarrar uma fitinha pela saúde, pelo amor, pelo trabalho, pela saúde do meu irmão, por tudo que você pode imaginar”. A turista afirmou que, mesmo sem conhecer todos os detalhes da origem da tradição, sempre acreditou no significado do símbolo.

“Eu sei que a fitinha do Bonfim tem a sua magia, a sua história, tem o seu porquê, mas eu não sei realmente qual é. A minha fé me trouxe até aqui pra eu fazer o pedido acreditando que essa fitinha vai me ajudar, porque a minha fé é no Bonfim”, contou.

Para quem mora em Salvador, o símbolo faz parte do dia a dia e da memória da cidade. “A fitinha do Senhor do Bonfim faz parte da vida desde cedo. Não é só um símbolo religioso, é tradição, é cultura e é identidade. A gente aprende que cada nó carrega um pedido e muita fé. E ver pessoas do mundo inteiro levando essa tradição com respeito mostra a força da nossa história”, afirmou o soteropolitano João Santos de Jesus, de 68 anos.